CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA Educação

DESFORMAÇÃO DOCENTE

Toda vez que ouço o quão ruim são os cursos de licenciatura e formação docente, me pergunto: ruim para quem? Acredito que, para o obsoleto, mas ainda vivo sistema escolar ao qual estamos inseridos, os espaços de formação de professores ainda têm funcionado bem na manutenção de estruturas historicamente enraizadas. Uma preparação básica que, em geral, consiste em formar ‘’mestres’’ para dar aulas, na frente de uma turma, ditando o ritmo do que deve ser trabalhado, contextualizando, se possível, o conhecimento, e depois averiguando a aprendizagem através de avaliações, contínuas de preferência, o que se traduz, na maioria das vezes, em prova toda semana. E aí surge o pacote completo das notas, boletins…

De fato, em muitos momentos, nós educadores estamos de mãos atadas com a falta de liberdade para desenvolver um trabalho emancipador nos espaços em que atuamos, entretanto, a formação que recebemos nos faz pensar como aqueles que hierarquicamente estão acima da gente, nos fazendo também ‘’aceitar’’ os tais planejamentos pedagógicos como algo dado, natural ou pior – único.

Voltamos ao ciclo.

Fala-se em fazer diferente, mas mudamos o contorno e não o conteúdo. Cada vez mais as aulas estão travestidas de nova roupagem, mas de mesma essência. Aí está o ‘’X’’ da questão. Não adianta se discutir contextualização, interdisciplinaridade, transdisciplinaridade do ensino sem questionar esse modelo escolar, a quem ele atende e, principalmente, sem considerar, os interesses das crianças e jovens no fazer educativo.

A experiência de diálogo com os educadores e educadoras de cada projeto alternativo de educação que tenho visitado ao longo da viagem tem me feito refletir muito acerca desse tema. Em geral, se fala muito sobre a necessidade de repensarmos os espaços de formação de professores, em contrapartida, se fala pouco em como

A histórica formação docente, cujos professores passaram, em sua grande maioria, pelas instituições tradicionais como escolas e universidades, seguirá firme seu ciclo de reprodução, na medida em que, o postulante professor de hoje será o mesmo do amanhã.  A lógica é: professor do amanhã dará aula da maneira como ele recebeu.

Voltamos ao ciclo.

A formação docente também segue a mesma produção fabril, pela qual os estudantes vivem na escola tradicional, e num certo sentido, tem contribuído para perpetuação desse sistema escolar que segue reproduzindo uma sociedade competitiva, autoritária, hierarquizada e infeliz.

Com outra, infeliz, semelhança, o magistério é cada vez mais uma área pouco atrativa para os jovens, assim como a escola tem se tornado o espaço, aonde se chega, já querendo sair. A tristeza dos jovens a cada segunda-feira é a mesma de muitos docentes. Vivemos em um sistema escolar infeliz, mais profundamente, numa sociedade infeliz.  Não à toa, uma das principais causas relacionada à licença docente, na rede estadual do RJ, é a depressão. A taxa de exoneração docente na rede pública também é altíssima.

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Foto: Estevão Balado

Em 2014, mais de 1200 professores da rede estadual do Rio de Janeiro ficaram licenciados por depressão ou transtornos mentais, o que corresponde a 12,5% dos 9.680 mil docentes que tiraram licença médica no ano anterior.

Seguramente esse índice continuará crescendo, enquanto a formação docente continuar trabalhando com o desenvolvimento da expectativa docente. Chamo de expectativa – à necessidade, mesmo com a melhor das intenções, de planejar cada passo do que deve ser feito no dia a dia escolar e a resposta que se espera obter de cada estudante – como se a educação fosse um processo unilateral de estímulo-resposta, ou melhor, estímulo-silêncio-resposta.

Esse é um debate que precisamos fazer para além das injustas e históricas condições de desvalorização profissional.

Uma das maiores belezas do ato de educar reside, justamente, na imprevisibilidade dos acontecimentos. Os melhores momentos que vivi no magistério não foram planejados.  Apenas me permiti viver e sentir o momento construído com os jovens e não para eles.

Caso acreditemos que é importante o desenvolvimento da autonomia na educação, devemos refletir que não é possível desenvolvê-la, planejando a vida do outro – o que tão pouco, significa que os professores não possam ou não devam estimular e/ou sugerir projetos aos seus estudantes. A diferença é que cabe a eles decidirem se querem ou não participar de tais atividades. E que nesse processo, o docente esteja profundamente aberto para ser transformado.  Mas aí um professor pergunta: e se na minha atividade, importante para formação intelectual dos estudantes, eles não quiserem ficar no espaço? Aí vem a expectativa…

Existir estudantes dentro de espaços metodologicamente criados, não significa que estejam atentos, envolvidos, tão pouco aprendendo os conteúdos desenvolvidos na atividade. Então, por que obrigá-los?

Há diversas maneiras e momentos distintos para se construir os ‘’tais conhecimentos importantes’’ sem ser de forma impositiva, autoritária ou no tempo em que desejam os docentes.

Precisamos quebrar a ideia que existe professor preparado para o exercício de sua profissão e que um pedaço de papel atesta sua capacidade de lidar com algo tão complexo que é educar. Sejamos menos arrogantes. Relacionamo-nos com ‘’n’’ pessoas diferentes todos os dias, de realidades diferentes, interesses diferentes e ainda acreditamos que uma proposta de trabalho vá funcionar para todos e todas? Importante salientar, quem diz se funcionou ou não?

Estejamos em permanente (des)construção.

É importante para nós docentes, ampliarmos a maneira de como construímos o conhecimento junto aos estudantes. Acredito que uma aprendizagem mais significativa passa pela liberdade em que eles possam escolher o que querem aprender, no tempo em que querem aprender – o que mais uma vez, diga-se de passagem, não inviabiliza os estímulos que nós possamos dar. Sabendo de antemão, a linha tênue entre: estímulos, regulação e autonomia. Lidar com essa problemática faz parte do exercício emancipatório para os agentes envolvidos no processo educativo.

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Foto: Estevão Balado

É muito interessante ver que há tantos educadores fazendo um trabalho incrível em seus respectivos espaços ‘’alternativos’’, através de um permanente processo de desconstrução e de auto-aprendizagem. Afinal, não há universidade de formação docente que trabalhe especificamente com pedagogia alternativa e como formar esses novos educadores. Infelizmente fomos educados a encaixotar o conhecimento – a institucionalizá-lo. Quando pensamos em forma
ção docente, logo nos vem à cabeça a universidade. Quando não, nos vem também um prédio, uma sala de aula e um professor de professores. O magistério necessita de mais energia colocada na prática e na problematização coletiva da vivência pedagógica. O professor precisa deixar de ser um forasteiro solitário em uma jornada que, já sabemos – é anti-pedagógica. É fundamental a descentralização dessa carga pesada que os docentes carregam nos anos de quebra de expectativa, porque foram escolarizados a acreditar que educação se faz no seu tempo, da sua maneira, e no fundo não percebem que cada educando é um ser único, que precisa se autoconhecer para melhor desenvolver suas potencialidades.

Moacir Gadotti traz uma importante contribuição ao definir que a escola deve ser como um organismo vivo, onde todas as pessoas trabalham em conjunto e vivem no dia a dia a solidariedade. Nesse sentido, a emancipação só será possível se o professor e a comunidade escolar entender que o trabalho educacional não deve estar centralizado no professor.

Então, como deveria ser a formação docente?

Tampouco tenho uma resposta pronta, mas seguramente ela hoje não está nas universidades e cursos de formação num sentido amplo. Acredito que cada projeto educativo deva buscar desenvolver o seu espaço contínuo de formação docente, de maneira a respeitar as suas especificidades e da comunidade ao seu entorno.

Certamente, a possibilidade de se inovar num sistema escolar tão rígido, conservador, com conteúdos pré-programados com direções tão arcaicas, tornam os desafios muito maiores. Isso sem falar na desvalorização salarial, condições péssimas de trabalho e por aí vai…

A questão também passa pelo nosso olhar interior – falamos muito sobre liberdade, direitos e emancipação as crianças e jovens, mas quando pensamos nas ações, ainda estamos condicionados a reproduzir comportamentos de regulação.

Coloquemos professores para trabalhar com crianças livres. Certamente, a escola será para os adultos.

Para nós professores, o desafio de pensar em uma nova educação é o movimento de quebra de muitos paradigmas internos. Como afirma José Pacheco, ‘’o professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é!’’.

 

#Reconsidere

Educação e Direitos Humanos

Por que só a História dos “Vencedores” é Contada?

Globalização ou Localização?

Já parou pra pensar que aquilo que tomamos como global, universal, na verdade tem uma raiz, uma origem? Alguém teve que, em algum momento, estabelecer esses padrões, por alguma razão.

É disso que Boaventura de Sousa Santos, grande intelectual português, fala quando trata do conceito de globalização.

“Proponho pois a seguinte definição: a globalização é o processo pelo qual determinada condição ou entidade local estende a sua influência a todo o globo e, ao fazê-lo, desenvolve a capacidade de designar como local outra condição social ou entidade rival”. (SANTOS, 1997, p.108)

Segundo o autor, a globalização é “a história dos vencedores contada por eles próprios”, ou seja, é a história das vitórias de uma cultura sobre outras, tornando-se, então, hegemônica. Esta passa a ser considerada a forma correta de viver e se relacionar em todos os âmbitos, desde o econômico ao social.

Dessa forma, o que se chama de globalização seria, na verdade, o sucesso de um determinado localismo. Pode-se sempre encontrar uma raiz local, cultural, específica, dessa globalização.

Sendo assim, o autor defende que temos Localização ao lugar de Globalização, mas que esta última terminologia é a adotada porque o discurso científico hegemônico privilegia a versão dos vencedores, fazendo muitas vezes com que a versão dos derrotados acabe por desaparecer quase totalmente.

Esse localismo globalizado do qual Boaventura trata é um reflexo das disputas por poder, onde uma cultura acaba predominando sobre muitas outras, ditando o padrão a ser seguido, e se tornando hegemônica.

Muitas vezes a cultura dos Direitos Humanos recebe essa exata crítica, de que na verdade, ela é uma cultura ocidental, que repete e impõe padrões ocidentais a todo um globo.

Contudo, não só o próprio autor, como diversos outros estudiosos e militantes da área, fazem a defesa de que a política de Direitos Humanos possui sim um cunho global, mas apresenta legitimidade local, e por isso teria um potencial emancipatório, rompendo com essa relação de duplo contexto da globalização, que hoje fragmenta culturas e impõe identidades.

E o que isso tem a ver com Educação?

Será que só queremos mesmo contar um lado da história? Que sociedade estamos levando à diante onde os “perdedores” – pode-se ler minorias – e suas histórias são constantemente esmagados e apagados em prol da manutenção de uma única lógica? Te convidamos a reconsiderar isso.

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Educação Psicologia

O sequestro do corpo na escola moderna (part.1 ou o começo do fim)

O sequestro do corpo na escola moderna (part.1 ou o começo do fim)

Quando digo corpo, o digo porque não acredito em separação entre mental e físico. O que nos atravessa deixa marcas na memória. Memória essa que pode ser revisitada através do corpo. Um corpo cunhado de memórias. Memórias que são afetos.

Onde se aprende que para o conhecimento ser grandioso ele tem que ser abstrato? Porque aprendemos, na escola, através de um quadro, dentro de uma sala fechada com luz artificial, algo que pode ser apreendido de forma lúdica sob a luz do sol e
com a matéria viva? Por que as escolas insistem em manter grades (de ferro ou curriculares) que aprisionam o infinito campo do saber?

Vamos voltar um pouco na história para entender uma das heranças que a escola moderna se pauta. O ponto de partida vai ser na Grécia Antiga, o chamado berço da filosofia. A ocidental, bom deixar isso claro.

Uma vez Platão disse “só aquele que renunciar em absoluto ao uso dos sentidos pode elevar-se. Só através da razão, alguém pode aceder à essência das coisas”.

Não que Platão não tenha razão no que disse, até porque, se pararmos para pensar, ele próprio apreendia o mundo e a vida fora de uma sala de aula. Mas uma adaptação vulgar foi feita e nos tiraram os sentidos e o sentir no campo educacional.

Hoje a escola, tal qual concebemos, tenta ao máximo separar o sentido da aprendizagem. Esse modelo de educação vem constituindo indivíduos alienados dos próprios processos de vida e cuidado de si. Angustiados e deprimidos.
Corpos embrutecidos, entristecidos e ressentidos.

Nos vendem a ideia de um lugar tão bom… Porque os indivíduos que ali ocupam estão nessa situação? Ou melhor, pra Quem(s)?

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Debate de Gênero Educação

Feminismo pra quê?

O debate sobre gênero e educação veio à tona mais uma vez em Niterói. Nesta semana, um colégio particular da cidade cancelou um debate sobre feminismo após pressão de alguns pais e mães de aluno(a)s e setores conservadores da cidade. Na internet, alguns chegaram a alegar que esse tipo de atividade consistia em uma doutrinação do(a)s estudantes. A escola, ao invés de dialogar com os responsáveis, optou por simplesmente desmarcar o encontro, o que gerou revolta de diversos aluno(a)s e militantes da igualdade de gênero que se solidarizaram com a situação.
A partir da compreensão de que o feminismo é um movimento social, cultural filosófico e político de luta por igualdade de direitos e pela garantia da dignidade e da diversidade femininas, nós, do Reconsidere, somos contrários a essa postura unilateral e defendemos a necessidade e a urgência de debater essa temática em todas as escolas!

Não se trata de um debfeminismo dadosate abstrato: a violência contra a mulher – física, sexual, simbólica, patrimonial, obstétrica – é uma realidade concreta que precisa ser discutida e superada. Só na cidade de Niterói, em 2014, houve 5.067 registros de agressão contra a mulher: 13,8 por dia! Companheiros e ex-companheiros são os acusados em um percentual significativo: 9,8% nos casos de homicídio e 33,8% nos casos de tentativa de homicídio.

No total, foram diversas denúncias de ameaça (1.518 casos), lesão corporal dolosa (1.459) e calúnia/difamação (1.408). No Rio de Janeiro o cenário também é alarmante: mais de 55 mil mulheres foram agredidas e quase 5 mil estupradas no mesmo período. Soma-se a isso o fato de que o Brasil é o 5º país com maior índice de feminicídio do mundo e o que mais assassina mulheres transexuais no planeta.

Esses números revelam que o feminismo, ou seja, a busca por igualdade entre os gêneros, não se trata de uma doutrina perversa ou de manipulação maliciosa, mas da busca por uma sociedade mais justa, livre e tolerante e menos violenta e conservadora. Independentemente da diversidade de visões políticas, religiosas e filosóficas – que são saudáveis em um sistema democrático – é fundamental que o debate e a denúncia contra o machismo ocorram e que comecem desde cedo! A escola deveria ser o lugar por excelência de desconstrução dos preconceitos, de estímulo à crítica e à emancipação e de valorização da diferença.

Lamentamos o ocorrido e seguimos na luta pedagógica pela efetiva igualdade entre todos e todas!

 

#Reconsidere

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA Educação

FAMÍLIAS, EDUCAÇÃO, RUPTURA, BABILÔNIA.

Muito se fala sobre a 13072945_998864716866785_819088960_oparticipação das famílias na construção do projeto político pedagógico das diferentes instituições escolares ser um dos grandes gargalos da educação. De um lado, profissionais da educação responsabilizando as famílias pela ausência. Do outro, as famílias que, diante de uma dinâmica intensa de trabalho e da necessidade do ganha-pão mensal, reclamam da falta de tempo para uma vivência mais próxima na educação escolar de seus filhos.

Que o modelo escolar tradicional, além de fábrica e prisão, também é um grande depósito não há menor dúvida, mas acredito que demasiada responsabilidade esteja sendo posta nas famílias enquanto, na verdade, pouco se considera que ela possa residir na conjuntura econômica-política-social-cultural que vivemos. A ‘’Babilônia’’ é, historicamente, o espaço do imediatismo, das relações humanas utilitárias, da lógica tempo/dinheiro, da superficialidade do olhar, da naturalização do cotidiano e, infelizmente, da terceirização da educação. Não se pode, portanto, culpar integralmente as famílias, pela suposta negligência educacional, descontextualizando o que vivem – tampouco, se deve isentar a responsabilidade que possuem no que tange à educação de seus filhos – mesmo nesse cenário de ‘’grande confusão’’.

Lembro-me sempre da experiência que tive na escola pública, onde muitas famílias, em situação de grande pobreza, pensavam na alimentação das crianças, antes de discutir ‘’desempenho escolar’’. Ainda hoje, muitos estudantes vão à escola, em primeiro lugar, para se alimentar. Até porque, só se discute educação, de barriga cheia.

E por que essa introdução gigante!?

Na experiência da viagem, tive a oportunidade de conhecer a Escola Caracol, situada em San Marcos Sierra, um povoado de aproximadamente 5.000 habitantes – na província de Córdoba. Uma escola fundada, organizada e vivida por famílias, que em sua maioria, migraram das grandes cidades para San Marcos, rompendo com muitos paradigmas da vida urbana.

Saem os prédios, entram as casinhas. Saem os prédios, entram as árvores. Saem os prédios, entram os olhares, que começam a se cruzar com fabulosa harmonia e com eles o fatídico sorriso. Belos e sinceros sorrisos, do mais singelo cumprimento ao enérgico abraço.

Havia esquecido como o céu podia ser azul, de como as estrelas podiam ser tão intensas e de como a lua podia ser tão brilhante.

Sai o individualismo, a frieza, a superficialidade. Entra a solidariedade, o amor, o respeito à individualidade e a força do coletivo.

Na escola Caracol, fundada há três anos, só há uma possibilidade para as famílias que desejam colocar seus filhos nesse espaço: imergir em seu projeto político pedagógico, e
m permanente construção, vivenciando-o integralmente. Não se trata de ir numa reunião ao fim do bimestre, para saber o desempenho escolar da criança – como se uma singela nota fosse sinônimo de aprendizagem. Até porque, não há provas, notas, muito menos, boletins… Num maravilhoso espaço físico, mergulhado na natureza, as ‘’famílias Caracol’’ se revezam diariamente, formando duplas e assumindo a função do que chamam de 13054539_998864696866787_438506488_o‘’portaria’’. Um conceito diferente de como atribuímos em terras brasileiras. As funções da portaria são: zelar pelo espaço físico da escola – limpando e organizando todos os materiais – preparando o café da manhã para todas as pessoas, auxiliando os demais educadores, se preciso. Essa função é desenvolvida uma vez por semana, durante dois meses, por cada dupla que se forma, ou seja, durante a semana pele menos dez pessoas diferentes participam da função de portaria. Em geral, um homem e uma mulher no exercício desse trabalho. Para os ‘’porteiros’’ essa experiência vai muito além da contribuição voluntária para a manutenção organizacional do espaço. Trata-se de acompanhar e viver a experiência da educação dos seus filhos de forma bem próxima, ajudando a construir diariamente um espaço transformador de educação. Há, sobretudo, muito respeito das famílias com o trabalho qu
e os maestros e professores desenvolvem, de modo que, não há interferência direta do que se está construindo junto às crianças, no dia em que estão trabalhando na escola.

Em diversas rodas de debate sobre educação, fala-se sobre a importância da comunidade escolar. A escola Caracol se constrói no plural e isso é uma de suas maiores virtudes. Enquanto muitos projetos de educação, inclusive os alternativos, sofrem com o pouco envolvimento das famílias em sua construção diária, as ’famílias Caracol’’ estão bem envolvidas com a escola, que a cada ano cresce mais em seu número de participantes. Um projeto que começou com cerca de trinta crianças, hoje possui o dobro.

Não há dúvida que a reflexão sobre os malefícios da vida urbana, a possibilidade de se pensar numa outra forma de educação e mais profundamente do modo de se viver – tem uma relação direta com o capital cultural das pessoas envolvidas. Em sua grande maioria, provenientes de classes sociais com maior poder aquisitivo, o que de forma alguma, deslegitima e/ou desqualifica o mundo novo que estão criando.

Vi uma comunidade desconstruindo o patriarcado, o machismo; repensando a alimentação, a gestação, o parto, a maneira de se relacionar com a natureza…

Enfim, o debate vai bem além da educação alternativa.


Cabe a pergunta: a solução então é deixarmos a ‘’Babilônia’’?13000499_998867963533127_1626872622_o

Experiências como da Escola Caracol nos brinda de esperança, para cada indivíduo com seus ideais, buscar plantar sementes de mudança no meio dessa grande confusão.

Ainda sonho em ver TODAS as escolas sendo construídas por famílias.

A mudança está em curso.

As ocupações dos estudantes nas escolas públicas brasileiras, por exemplo, estão dando seu recado e nos ensinando que educação só se conjuga no plural.

O primeiro passo é quebrar a estrutura piramidal, autoritária e centralizadora das instituições.

Ah, e as famílias terem o desejo efetivo de participarem desse processo.

Como?

Isso, só construindo juntos.

 

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CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA Educação

CABRA-CEGA

É no brilho dos olhos das crianças,

Na espontaneidade dos seus sentimentos,

Na risada mais calorosa e libertadora

Que a esperança de um novo mundo se faz.

Um mundo que precisa de amor, do resgate da curiosidade mais infantil,

Da solidariedade mais fraterna, do calor humano mais fortemente sentido.

Da energia do Valentin, da delicadeza da Júlia, do sorriso da Lucila, da sensibilidade da Erica, da generosidade da Neli.13035543_995343673885556_2123457384_o

A vida é a maior escola que temos.  Numa casa que transborda luz, na Avenida Boulevard, em Santa Fé, aprendi que o amor se constrói minuciosamente em cada gesto, cada olhar, cada conversa, cada brincadeira – contrariando a máxima que as pessoas precisam de tempo para se conhecer.

Debochamos desse tempo, quando em uma singela semana – quebramos o cotidiano e vivenciamos gargalhadas maravilhosas – viajando dos assuntos mais complexos aos mais banais.

A tal transformação, de que tanto falam, é atemporal. Trata-se da abertura dos nossos corações. Aprendi mais sobre educação, filosofia, existencialismo… no chão da cozinha, na calçada da rua, na beleza de um jardim e nas inúmeras brincadeiras com as crianças em uma semana, do que em muitos anos da minha vida.

Meus melhores professores de espanhol até agora foram Valetin (5 anos) e Júlia (9 anos). Quando os vejo no dia a dia, me dou conta do quanto burocratizamos a vida, naturalizamos o cotidiano opressor e quão necessário é o elemento do brincar na balança de tudo.

Fala-se muito em seriedade, em maturidade, mas fala-se pouco em brincadeira.13052599_995343717218885_1655104464_o

Fazia muito tempo que não brincava de pique-esconde, cabra-cega, pedra-papel e tesoura, construía aviões e os jogava loucamente pela casa…

Enfim, como diria o sociólogo Peter Berguer,  a tão falada maturidade é:

“ Um estado de mente que se acomodou, ajustou-se ao status quo e abandonou os sonhos selvagens de aventura e realização. Não é difícil perceber que a nossa noção de maturidade é funcional, na medida que ela dá ao indivíduo uma racionalização por ter encolhido os seus horizontes’’.

Viver com essa família me aproximou da cura da fase adulta.

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CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA Educação

O que transmitimos verdadeiramente para o mundo para querer tanto de volta?

Não se constroem novas formas de educar sem completa entrega e doação, tampouco se constrói um novo mundo sem amor, solidariedade e espírito colaborativo.

12970223_991332007620056_1919447082_oAs palavras possuem uma força de transformação social fabulosa, inspiram e podem colocar o coração na sola do pé, pois nada é tão forte quanto agir. Temos referências educativas incríveis de todos os cantos do mundo. Poderia ficar horas listando os educadores que escreveram fragmentos fabulosos, mas nesse momento necessitamos de menos discursos e mais ações.

Há uma rede viva, crescente, de pessoas se unindo, e entendendo que não se conjuga educação na primeira pessoa do singular.  Ou se faz em construção coletiva, ou se faz em construção coletiva.  Pessoas que almejam desfrutar de um novo amanhecer e acreditam que essa transformação se dará na sinergia entre todos e todas.

A viagem não tem nem uma semana e já temos histórias de carinho e solidariedade incríveis com os novos amigos Hermanos que fizemos.

Estivemos hospedados na casa da jornalista e educadora Dolores do projeto Tierra Fértil, nos primeiros dias, onde vivenciamos ao máximo a generosidade humana. Uma doação sem acordos, expectativas ou desejos ocultos. A doação pela doação.

Na última 6°feira, viemos para um encontro de educação alternativa chamado EPEP em San Nicolas de los Arroyos, Argentina. Na correria de todo o processo, nos faltavam as cópias das autorizações de direito sobre o uso de imagem para nossa web-série, e conseguimos, aos 49 minutos do segundo tempo, encontrar uma loja que estava fechando, mas que gentilmente reabriu suas portas para nos atender. Estávamos acompanhados da amiga e educadora Malala, do Projeto Tierra Fértil, que intermediou o contato com os funcionários. Assim que perceberam nosso sotaque estrangeiro, disseram em tom sincero de preocupação, para ficarmos atentos aos argentinos. Nesse momento Malala interveio, desconstruindo essa visão generalizante, que muitos reproduzem.  Acrescentou que iríamos para um encontro, por exemplo, que reunia pessoas incríveis, solidárias e que muitas não se conheciam.

Um dos funcionários, nesse momento, disse: – Há pessoas e pessoas…12992227_991332737619983_1618751260_n

Esse diálogo só ratifica a ideia de que a grande escola é a vida.  Cada situação é um momento de aprendizagem e também de desconstrução do senso comum.

Voltando ao objetivo prático das impressões, para piorar a situação, o computador estava sem bateria e precisávamos recarregá-lo para imprimir o arquivo.  Falamos um pouco sobre a gente, o Brasil e a nossa proposta de produção da web-série sobre projetos alternativos de educação. Por conta d
e todo carinho e atenção dos trabalhadores decidimos presenteá-los com um CD da querida banda Barcamundi. Ficaram surpresos. Os amigos Aytorn, Lucas e Nehemias funcionários da loja Área Gráfica, não só foram incrivelmente solícitos e pacientes com as nossas demandas, como ‘’não satisfeitos’’, não nos cobraram nenhum centavo pelas 232 impressões que fizemos. Não se tratava de um escambo. Apenas generosidade.

Apenas?

A construção de outr13000425_991332044286719_732070637_oo ideal de mundo parte do nosso exercício de diálogo: interior e exterior. Para os educadores, sobretudo, os que vieram como eu, de uma formação engessada e castradora – o medo se faz muito presente. A repressão vivida quando criança se transforma no autoritarismo do presente e na desilusão do futuro. O ciclo de reproduções permanece ativo e para sair dessa lógica, somente em desconstrução e a certeza que devemos estar em constante mutação. É necessário um diálogo constante com nosso interior, enfrentar conceitos cristalizados, mas que podem ser rompidos. Compartilhar um bom vinho com nossas inseguranças. Não existe educação pronta, metodologia perfeita ou educador-herói, o que existe é a vivência e a crença de que podemos aprender todo o tempo. Em cada diálogo, sozinho ou em grupo há uma oportunidade latente de se expandir. Como encaramos esse processo é o que define o nosso aprendizado. Fomos escolarizados a reduzir conhecimento a currículos moldados, aprendizagem a quatro paredes e a ouvir e respeitar mais as pessoas de maior idade. Cada criança que eu me relaciono, por exemplo, me ensina com suas palavras e gestos a repensar minha forma de viver. A liberdade delas, no sorriso mais puro e genuíno ou no choro mais intenso e chamativo, me mostra o quanto estamos matando não só a educação, mas a chance de construirmos outra sociedade. Afinal, nós que a compomos.

A pergunta que não sai da minha cabeça nesse momento é: o que transmitimos verdadeiramente para o mundo para querer tanto de volta?

Não tenho dúvida que há uma força latente, viva nos seres humanos, que urge por desabrochar. A transmissão verdadeira do que somos e sentimos é uma forma de nos aproximarmos dessa transformação.

Não há transformação que se faça sem doação.

Não há novo mundo sem ressignificação das relações humanas.

Chega de não!

Falemos mais ‘’sim’’ para as pessoas e para o mundo.

São histórias assim que me fazem pensar pelo que lutamos.

‘’Eu não nasci sem causa. Eu não nasci sem fé…’’

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CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

A arte de criançar – Tierra Fértil

 

Depois de tantos anos em que fui uma criança disciplinada e que cumpriu, obedientemente, as constantes imposições de cima pra baixo durante o período escolar e também universitário, venho há algum tempo, em outro movimento: resgatar uma criança adormecida, |presa|, mas que ainda pulsa dentro de mim.

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Franco de Castro em Tierra Fértil – Beccar – Argentina (Foto: Estevão Balado)

Hoje foi mais um dia de um encontro pessoal, transcendental e revigorante com crianças literalmente livres. No projeto Tierra Fértil (Argentina), que surgiu em 2012, não existe regulação, direcionamento ou podagem. O que se tem é a liberdade viva. Crianças aprendendo brincando, cada uma administrando integralmente o seu tempo, interagindo entre si e com o ambiente que as cerca. Esqueçam as divisões tradicionais de espaço, aula, professor de disciplinas, provas, autoritarismo…

Sua pedagogia não leva uma assinatura específica, são inúmeras fontes teóricas, mas senti forte influência da experiência de Summerhill School – espaço libertário fabuloso criado pelo educador Alexander Neill, na Inglaterra, em 1921. Experiência viva até os dias de hoje.

Em Tierra Fértil, temos um espaço investigativo, que valoriza a vivência e o aprendizado prático. As famílias, que deram vida a essa interessante iniciativa, venceram o medo e a desconfiança na esperança de fazer uma nova educação.

“El 95% de los adultos se convence que la educación tiene que ser una tortura y un esfuerzo, porque si no es una tortura y un esfuerzo entonces mi hijo no va a entender el significado del esfuerzo” afirma a educadora Dolores do projeto.

A verdade é que entre a problematização da educação até sua mudança efetiva, existe um abismo, onde poucos se arriscam.

Tierra Fértil está se aventurando, construindo o conhecimento muito além dos muros de sua bela casa em Béccar, bairro de San Isidro, na zona Norte de Buenos Aires.

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Franco de Castro em Tierra Fértil – Beccar – Argentina (Foto: Estevão Balado)

Tive o prazer de acompanhar a visita das crianças ao museu Lucy Mattos, de arte contemporânea, para interagirem com uma exposição que tratava da cultura africana e outra que abordava temáticas como: sociedade de consumo, ditadura da beleza, violência de gênero, a busca incessante pelo poder no sistema capitalista, meritocracia… Assuntos importantíssimos que não são devidamente contemplados na fatídica grade curricular. Diferentemente da minha época de estudante, onde só podíamos andar em fila indiana e ouvir, atenciosamente (?), a mediadora do museu e os professores, ao longo da visita, as crianças da Tierra Fértil estavam livres – interagindo e perguntando o que lhes interessavam, no tempo próprio delas.

Não faltaram perguntas e comentários.

Chamou-me a atenção à ida ao museu não ser um fato amplamente comemorado pelas crianças, como muitos estudantes dão berros de alegria quando não se tem
aula ou porque, simplesmente, surgiu a oportunidade de saírem do ambiente prisional escolar tradicional. Parecia apenas mais um de tantos outros momentos onde o conhecimento é construído para além dos muros do projeto. Fomos a pé para o Museu. Uma tranquila caminhada de 10 minutos, onde as crianças respeitaram as orientações dos educadores em todos os momentos.

Ao término da exposição, regressamos a casa do Projeto e voltamos a brincar. Joguei bola. Perdi uma partida de Resta Um. Joguei forca. Desenhei. Comi um maravilhoso lanche coletivo e tive a melhor aula de yoga da minha vida, protagonizadas pelas estudantes Antônia (9 anos) e Violeta (8 anos).

Por fim, essa experiência curta temporalmente, mas intensa em aprendizagem, só ratificou a ideia de que a educação não se faz com medo, repressão e autoritarismo, como muitos acreditam. Vi crianças aprendendo no riso e no choro, na brincadeira e no conflito. Afinal, não existe educação sem problemas. Tierra Fértil optou por vivê-los e enxergá-los como fonte latente de aprendizagem.

Conheci o Simon, Vitor, Antônia, Violeta, Vincent, entre tantas outras crianças, com um brilho nos olhos apaixonante, onde a sede pelo aprender se dá de forma natural, espontânea e potencialmente livre.

Reconheci uma criança que andava distante…

Continuo tentando me encontrar.
#Reconsidere

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[Re]Considere – A Festa 2