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CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA Educação

Quando os sonhos têm vez…

Acredito que a nossa capacidade de sonhar nos define enquanto seres humanos. Um ser sem sonho é um ser em ausência. Por isso, penso que qualquer luta social tem por essência a necessidade de produzir sonhos e deixar aflorar a expressão do nosso ser, de tal forma que até os mais lindos voos oprimidos ou esquecidos passem a ganhar nova forma e cor.

E se é para sonhar, que sonhemos alto!

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Foto: Estevão Balado

Ah, sem a inocência de que os sonhos se concretizam sem doação, entrega e amor em seu exercício.

Um grupo de famílias em Manaus, no norte do Brasil, possui um sonho comum a uma grande parcela da sociedade: a ressignificação da escola. Pública, diga-se de passagem. Porém, diferentemente daqueles que reclamam, mas nada fazem para alterar esse quadro, esse grupo decidiu transpor seus anseios e sonhos para o exercício prático da luta. Saíram do discurso. Criaram uma associação chamada Coletivo Escola Família Amazonas (CEFA), que nada mais é do que a sociedade civil organizada, ciente do seu poder, buscando intervir diretamente na transformação do que entendemos pela palavra: público.

Quando os conheci, fiquei abismado com o engajamento e disposição dessas famílias – a maior parte de classe média – que teriam total possibilidade de criar uma ‘’escola alternativa’’ no quintal da casa de um de seus membros.

Não. Claro que não…

Pensar em uma escola transformadora apenas para seus filhos seria pouco se não envolvesse aqueles que mais precisam e, que em nossa realidade, se encontram na esfera pública. Se o ato de educar é uma ação impregnada de amor, como pluralizar esse sentimento sem buscar abraçar o máximo de crianças possíveis!?

Em pouco mais de um ano de atuação do coletivo, três escolas de Manaus já estão desconstruindo sua proposta tradicional e iniciando um processo para repensar seus respectivos espaços físicos, as relações humanas e a maneira como se constrói comunidade e conhecimento.

Aqui, falamos de rupturas que vão além do conceito de aula, provas, seriação, criação de assembleias, roteiros de estudos, mesas em círculos… A defesa central é para a criação de escolas de gestão democrática, processos horizontais de tomadas de decisão, fortalecendo o conceito de comunidade de aprendizagem.

Pude viver um pouco desse processo nas escolas, onde tive a oportunidade de conhecer diversas pessoas maravilhosas. Mas, com uma criança, tive uma conexão de alma. Um daqueles encontros que não se explica. Apenas se sente. Após trocarmos poucas palavras, lá estávamos de mãos dadas, conhecendo seu reduto predileto na escola. Era o alto de uma linda árvore. Seu nome era João, filho da Ana Gouvêa, uma das fundadoras do CEFA. Uma criança incrível de 6 anos, com uma inquietude latente e olhos gigantes para o mundo, como quem sempre está antenado em tudo que acontece, mesmo que, por vezes, seu olhar parecesse distraído ou disperso. Quando lhe perguntei como surgiu o processo de criação dessas escolas, o João me explicou:

“A gente tentou várias escolas, só que não estava dando certo. Até que a gente teve a ideia de fazer uma escola. Só que eu digo fazer: não é construir com tijolos, fazer programando ela. Como se fosse um filme que eles estavam lançando.”

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Foto: Estevão Balado

Tudo começou como muitos projetos – da negação ao modelo tradicional de ensino – para então se pensar no que poderia ser feito. Visitaram escolas e projetos alternativos em São Paulo e no Rio de Janeiro para se alimentarem de esperança e enxergarem que é possível fazer diferente. Desde então, conseguiram apoio da Secretaria de Educação de Manaus e, duas escolas da cidade passaram a aderir a esse movimento. Além disso, inauguraram uma nova escola – piloto, onde estuda o João. Tudo isso me impressionava. Porém, o movimento mais audacioso que vi foi a aposta de alguns membros do coletivo de colocarem seus filhos nas escolas públicas. Desse modo, não atuariam apenas como CEFA, um movimento social, através de uma intervenção de fora para dentro, mas também como pais, na construção diária da escola que sonham para seus filhos e as demais crianças.

Isso para mim é uma grande ruptura de paradigmas.

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Foto: Estevão Balado

E assim, como um filme, as escolas estão a cada dia construindo seus roteiros de como esse projeto político pedagógico pode ganhar as tais formas e cores.  Um processo árduo e que sempre estará impregnado de contradições. Ainda mais se os caminhos não são construídos paulatinamente com muita reflexão. Nesse contexto, é fundamental o fortalecimento do debate com a comunidade ou a chance de ser cooptado e cair nas armadilhas do sistema capitalista é muito grande.

Como dizia Paulo Freire: ‘’Não basta saber ler que ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho’’.

Nesse processo é importante entender que cada realidade é uma. Cada espaço tem sua história, sua identidade. Não existe modelo de educação que possa ser replicado, mesmo quando há o encantamento com projetos alternativos que já desenvolvem esse “fazer diferente”.

O CEFA teve a coragem para começar a mudança e a disposição para viver todas as contradições desse processo. O caminho de desconstrução e de construção de uma identidade própria será difícil, mas esse sonho será possível apenas vivendo-o.  E, com muita reflexão coletiva.

Como dizia o João:

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Foto: Estevão Balado

‘’Como é uma escola democrática, a gente não paga. A gente participa das coisas. Isso faz a nossa escola ser diferente’’.

 

E no futuro? Como esses jovens atuarão em nossa sociedade?

O tal sonho se constrói com paciência, dedicação e o olhar constante para o interior. O que de fato acontecerá ninguém sabe. Acredito que o processo é sempre mais valioso que a substância final e o João é a prova viva de que é possível fazer diferente, ser diferente e valorizar a diferença, principalmente escutando o que as crianças têm a dizer.

 

#Reconsidere

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

A BIBLIOTECA-ESCOLA

Já eram 18h da tarde e mais um dia se encerrava. Mais um capítulo chegava ao seu ponto final ou talvez apenas em suas reticências habituais que criavam a expectativa de um novo encontro. Lá estava uma criança, de aproximadamente 6 anos, desafiando o tempo que lhe convidava à retirada, mas seu desejo de ali permanecer era tão forte como a expressão de sua alma. Desejo por apenas mais uma leitura, mais um singelo folhear de páginas, entre risadas de canto de boca em meio à ansiedade de estar disputando com o tempo, segundos preciosos – como quem diz: ‘’só mais um pouquinho…’’

Lá estava a criança e seu livro, em um lindo diálogo solitário de amor e partilha. A Biblioteca El Limonar, em Medellín, Colômbia, necessitava fechar sua casa. Era uma sexta-feira. Todos já estavam cansados. Mas a criança ali permanecia fiel ao seu mundo de descobertas.

Convite feito.

– Venha, venha! Veja esse livro…                          

Dando as mãos a Jéssica, diretora da Biblioteca, a criança a leva até o seu livro, convidando-a para seguir seu importante diálogo. Atenta, Jéssica escuta cada palavra que sai da criança e das imagens do livro ‘’Los Colores’’. De maneira muito sensível e acolhedora, Jéssica retribui o convite, sugerindo a criação da mesma ideia do livro – imagens de mãos com diferentes cores – junto com a criança na manhã seguinte.

Estava perto e longe. Via de fora, como um observador, nesse privilegiado camarote da vida, mais uma vez, o brilho nos olhos de uma criança explodir, tamanha era sua felicidade com a proposta.

Em frações de segundos, tudo mudou. A criança se dá conta que não poderia no dia proposto, pois teria uma partida de futebol.

Olhar desesperado. Incrédulo. Vazio.

– Tia, mas amanhã eu não posso!

Sentia que a criança quase chorava.

Jéssica contesta.

– Não há problema algum, meu amor. Fazemos então em outro dia em que você possa.

A Terra gira. Novamente, tudo muda. Mais uma explosão de felicidades.

Dessa vez era tão grande, que era necessário convidar mais pessoas para conhecerem o livro e a desafiar mais uma vez o tempo.

Não havia como a biblioteca se fechar, mesmo com todos os trabalhadores cansados em mais um dia de jornada, aquela criança era a expressão máxima da nossa natureza humana de aprender e se encantar pelo conhecimento – principalmente quando não existem as fatídicas intervenções dos que moldam para sua linha de produção.

Ficava pensando nos motivos que nos levam a perder boa parte desse encantamento genuíno infantil na medida em que envelhecemos.

Depois do tio, pai, tia, primo, avô, cachorro e o periquito também conhecerem o livro ‘’ Los Colores’’ – a criança se vai com a certeza que as boas histórias terminam com reticências, assim como se dá em cada dia nessa biblioteca que constrói livros eternos sem se preocupar com o ponto final.

Ali eu fico, ‘’enamorado’’ de um momento lindo – em que só vi, escutei e nada falei.

Não era preciso.

Apenas admirei e sorri com a experiência de conhecer um espaço que ressignifica diariamente a ideia que eu tinha de ‘’bibliotecas’’. Esqueçam um   lugar restrito, de portas fechadas, cada qual em seu mundo, em silêncio, silêncio, silêncio… Na Biblioteca El Limonar há vida, barulho, respeito, arte, construção de conhecimento e muito amor – um lugar que nasce da inquietude de sua comunidade. Localizada numa zona de conflito de facções, símbolo dos anos de guerra que marcaram a Colômbia, a biblioteca se configurou como uma zona neutra, onde ali se construía e não se destruía. Ah, importante dizer: sempre juntos. Jovens que se odiavam por uma simples fronteira geográfica ali brincavam, esqueciam as desavenças e desfrutavam juntos de cada vivência.

Fiquei espantado em ver tantas crianças, jovens, adultos, idosos com uma vontade imensa de estar aí. Vontade essa, que honestamente, nunca senti. Até porque, em geral, as bibliotecas que conhecia estavam sempre de portas fechadas. Ou abertas, mas fechadas.

Quando tive acesso à programação daquele espaço que desenvolvia oficinas de ciências, fotografia, robótica, passando pela construção de uma horta e na forte valorização do conhecimento popular, entre outras atividades, não tive dúvida que estava numa escola e ali queria ficar.

Disse à Jéssica:

– Não sei se vocês se deram conta, mas esse espaço é uma linda escola. Na verdade é até melhor que não tenham percebido, pois a possibilidade que temos de ressignificar uma escola é não querendo ser uma.

 

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

TENTADOR, NÃO!?

Imagine sair da ‘’grande’’ cidade, do ensurdecedor barulho diário do caos que polui sonoramente, quimicamente e espiritualmente sua alma – seguramente já desgastada por essa infeliz rotina.

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Foto: Estevão Balado

Mudemos o cenário.

Passemos agora a viver numa comunidade com cerca de dez famílias, no meio das montanhas, num contato incrível com a natureza, buscando juntos criar uma maneira distinta de nos relacionarmos, de repensarmos a educação dos nossos filhos, assim como a sustentabilidade política e econômica desse espaço.

Esqueçamos as tradicionais moedas capitalistas. Trataremos de criar outra. Podemos chamá-la de ‘’sonho’’, que será apenas um símbolo representativo de troca entre as diferentes produções em nossa comunidade. O preço das coisas, poderíamos chamar de: ‘’apreço’’. Esqueça acumular, estocar, revender, lucrar.

Não. Cada um, de acordo com suas potencialidades e respeitando os interesses da própria comunidade, produz para si e para os demais o necessário para manutenção do espaço, onde a palavra compartilhar mais do que dita, será vivida.

Em termos de educação, não criaremos um espaço de aprendizagem só para crianças, mas para todos e todas, afinal nunca deixamos de aprender na vida. Não existirão, portanto, professores, senão que, nossas próprias famílias sinergicamente educarão as crianças entre si, aprendendo com elas e valorizando os diferentes conhecimentos relativos à comunidade.

No que tange à organização política do espaço, descartaremos o autoritarismo, a centralização de poder e as relações hierárquicas. Construiremos tudo de maneira horizontal, coletiva e consensual.

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Foto: Estevão Balado

Tentador, não!?

A que horas partimos?

Em diversas rodas de debate com amigos, divagando sobre utopias, chega-se ao momento da fatídica pergunta, daquela que desencadeia, por si só, como um efeito dominó, mais e mais perguntas…

É possível plantarmos a semente de um novo mundo estando dentro dele? Ou somente se ‘’isolando’’, se colocando fora? É possível sair, uma vez estando dentro do sistema?

Nesse momento, alguém geralmente bate na mesa e pergunta: você quer fugir para uma ilha ou disputar a babilônia?

Na experiência da viagem pude conhecer projetos educativos que buscam travar uma árdua e necessária disputa pela transformação da realidade, ou seja, não estão ‘’apenas’’ buscando a ressignificação do que entendemos pela educação, se isso não estiver a serviço de uma transformação mais complexa, profunda, do que entendemos por esse sistema sócio-econômico em que vivemos. Outras experiências preferem permanecer mais ‘’fechadas’’ em sua prática particular, buscando se colocar a margem desse sistema e se protegendo de qualquer ‘’contaminação exterior’’. Nasceram para dentro e assim desejam permanecer.

Sim, é complexo…

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Foto: Estevão Balado

É fato que, não transformaremos a escola, sem que a matemos. Sim, é preciso matar a instituição-escola que há dentro de nós, se desejamos sua mudança. Analogamente, não mudamos o sistema capitalista em que vivemos, sem admitirmos a força de sua introjeção em nós. Mais do que seus aspectos políticos e econômicos, me refiro à força de sua ideologia. Em diversos momentos estamos reproduzindo, sem pensar, a lógica do consumismo, da vaidade, da ganância, do individualismo, da competitividade… Reconhecer a força dessa ideologia é um importante passo no processo de desconstrução dela.

Che Guevara dizia que: ‘’não acredito que sejamos parentes muito próximos, mas se você é capaz de se agitar de indignação cada vez que se comete uma injustiça no mundo, somos companheiros, que é o mais importante’’.

Não há nenhuma dúvida sobre a força da América Latina enquanto uma grande comunidade de aprendizagem, onde as supostas fronteiras geográficas são rompidas pela expressão da educação transformadora, mesmo tratando-se de países diferentes, culturas diferentes e lugares que nunca se comunicaram. Nessas terras existe outra comunicação, uma mais sensível. Tratam-se dos olhares, dos corações, das almas que transcende qualquer dificuldade relacional entre as pessoas. Mais do falar, as pessoas se sentem.

E quando nos comunicamos, para onde vamos?

Aí surgem mais perguntas. A diversidade de ideias, pluralidade de interesses e a especificidade de cada um frente a sua realidade e história de vida, nos leva, em geral, para diferentes caminhos. Alguns dirão, temos que fugir da babilônia, dessa terra onde o amor é ocultado todos os dias pela fumaça de gás carbônico, em que se espera chegar a cada dia em algum lugar, como se a vida fosse o amanhã que tarda por se apresentar. Pela janela o mundo passa e onde estamos? Aonde vamos parar?

Alguns dirão, nessa terra não há solução, só insegurança. Então, por que ficar!?

Podemos sair e juntos construir a semente de um novo mundo, pois nesse não há como transformar sem se contaminar.

Outros questionarão: quantos possuem essa ‘’sorte’’, esse capital cultural e se dão ao luxo de refletirem a possibilidade dessa mudança, de repensar a vida, pois não existe em seu cotidiano a palavra morte!?

Continuarão: e se você sair, quem fica para resistir?

O sistema capitalista e sua metamórfica história possuem grande capacidade de fagocitar pessoas e por sua vez, suas ideias, seus projetos – levando-os ao cenário da mercantilização não só da educação, mas, sobretudo, da vida.

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Foto: Estevão Balado

A sua vida, seus ideais, seus sonhos se tornam rapidamente angariados e colocados numa prateleira, afinal alguém pode lucrar com isso, pensam os abutres.

Não é um debate fácil, nem um pouco resolutivo, mas em diversos momentos, me chama a atenção que a solução encontrada, por pessoas/coletivos/projetos para solucionar os problemas cotidianos de seus espaços de atuação, seja uma mera reprodução do próprio sistema que se almeja transformar.

Soluções que passam pela proibição, exclusão, negação, isolamento, acordos espúrios…

Há quem diga que são nos problemas que mostramos as nossas facetas.

Pode ser, mas em geral, somos contraditórios por natureza.

Para os utópicos, sonhadores e almejantes da transformação da realidade, refletir sobre os caminhos dessa estrada é se apequenar para se agigantar. E aí então responder: seremos sementes ou só ajudaremos a regar?

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

DO OURO À INFÂNCIA

No livro ‘’ As veias abertas da América Latina’’, Galeano nos brinda com a reflexão:

‘’Na história dos homens, cada ato de destruição encontra sua resposta, cedo ou tarde, em um ato de criação’’.

Mais do que a sensibilidade de suas palavras, fico a refletir sobre a necessidade de mantermos sempre uma visão otimista do mundo, mesmo no cotidiano banal de injustiças.

Lembro-me de que uma vez, quando me perguntaram sobre a importância da educação alternativa, introduzi dizendo:

Só podemos discutir diferentes propostas educativas se as crianças estão de barriga cheia. Quando existe criança com fome, não se discute metodologia educativa…

Não podemos jamais perder de vista, não importa a profundidade da discussão no âmbito pedagógico-metodológico, que a educação é a arma mais latente e calibrada que temos para transformação social, emocional, desconstrução dos nossos males e emancipação de um ser. O disparo, se bem dado, faz estragos, pois aqueles e aquelas que saem serão agentes críticos, certeiros de seus alvos e sementes do caos e da prática de um novo mundo.

Não há bala saindo, mas sai esperança. Não há sangue no alvo, mas no alvo há luz. Não há choro coletivo, pois os sorrisos vencem o medo. Alguns tremerão quando a liberdade, efetivamente, vencer a opressão.

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Foto: Estevão Balado

Como, por exemplo, vence Alex, um jovem de 11 anos, que entregou ainda criança sua inocência e pureza em troca de trabalho nas minas de ouro de Huamachuco, cidade localizada no norte do Peru. Quando o conheci, me dei conta que suas mãos calejadas, de unhas grandes e escuras, denunciavam um tempo que nunca mais voltaria. Não foi fácil escutar de uma criança tão jovem que o cianeto é perigoso, tóxico e que pode fazer muito mal à saúde das pessoas que trabalham nas minas, podendo até matá-las.

Pensei…

Como admirar a beleza do voo de uma borboleta se uma das suas asas é cortada? Acreditaremos que borboletas não sabem voar ou que voam de maneira irregular e dependente.

Felizmente, as asas do Alex foram resgatadas pelos acompanhantes da Escola Democrática de Huamachuco – a primeira do Peru, diga-se de passagem. Criada em 2009, a escola oriunda de uma rede espalhada de projetos democráticos pelo mundo desenvolve um híbrido entre a pedagogia libertária e a pedagogia de projetos.  As crianças têm total liberdade para decidir onde querem estar, com quem querem estar e o que estarão fazendo em cada espaço.  Adendo importante – a fatídica expressão conservadora: ‘’não fazer nada’’- também é uma opção. As crianças, de diferentes idades, aprendem conjuntamente, participam de assembleias semanais com toda equipe profissional e possuem uma confiança incrível para expor o que pensam, respeitando muito as diferentes opiniões, assim como a vez de falar de cada um.

A escola, privada no sentido formal, trabalha com jovens de diferentes situações econômicas, onde as famílias realizam um aporte mensal de acordo com sua realidade financeira, de modo que, não há um valor mensal fixo e aqueles que não possuem condições de pagar têm bolsas que chegam a até 100%. Ou seja, a situação financeira de uma criança não é um critério de exclusão para entrada na Escola Democrática de Huamachuco. As famílias de maior poder aquisitivo possuem a noção que devem contribuir mais para cooperar com aquelas que não têm a mesma condição. Sem contar que os profissionais da escola, não importando a função que executam, apreendem o seu papel enquanto educadores e, portanto, participam de todas as atividades pedagógicas, ganhando o mesmo salário.

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Foto: Estevão Balado

Galeano ficaria feliz se conhecesse esse projeto de perto

A escola funciona de terça a sábado e possui educadores de diferentes áreas do conhecimento.  Estes são chamados de acompanhantes e propõem projetos para serem desenvolvidos com as crianças. Vários projetos me chamaram a atenção: oficina para tecer, música, mitos, carpintaria e chegando à energia eólica.

Neste projeto, lá estava Alex, atento, curioso e repleto de indagações/pensamentos acerca do tema. Impulsionado pelo seu acompanhante, o engenheiro Reiner, Alex mergulhou com os olhos, coração e toda sua energia no projeto. Viajou com seus amigos da escola e acompanhante para Trujillo – ‘’cidade grande’’ – cerca de quatro horas de Huamachuco – com intuito de conhecer uma empresa especializada no tema e  aprender ainda mais. Voltou para a Escola Democrática com o ímpeto juvenil de quem necessitava mostrar o que tinha aprendido. Não por arrogância intelectual, mas por puro diálogo e compartilhamento singelo de conhecimento.

No último dia de vivência na escola, pude ver um jovem rapaz de mãos calejadas, unhas grandes e escuras, levantando-as compulsivamente para explicar seu projeto de energia eólica para os demais estudantes e acompanhantes, que, atentos, participavam do seminário de apresentação. Alex e seus amigos construíram uma maquete bem elaborada para explicar como se dava o funcionamento de um sistema de produção dessa energia limpa. Explicaram sobre a construção e rotação das hélices, a compilação com o sistema de bobinas, formação de campo magnético e, através de um diodo, mostraram como se dá a transformação de energia mecânica em elétrica. Falaram sobre as vantagens e desvantagens dessa matriz energética e estavam super empolgados em ativar o sistema de energia eólica, já instalado na escola, mas ainda sem funcionamento. Em todos os momentos, Alex parecia o mais entusiasmado com o projeto, levantando a mão diversas vezes para tecer comentários, respostas ou perguntas precisas sobre o tema.

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Foto: Estevão Balado

No final da apresentação, Alex e os estudantes envolvidos nesse projeto ganharam do seu acompanhante um certificado de engenheiro júnior em energia eólica.

Costumava dizer: mais um pedaço de papel… Mas sei que para eles, o tal título era muito mais que arte emoldurada para ficar presa em parede.

Quando escutei de um dos meninos – O que eu faço com isso, tio!? Tive a certeza que os jovens da escola Democrática de Huamachuco caminham na pureza de valorizar o conhecimento pelo conhecimento, em detrimento de uma sociedade que busca incessantemente um pedaço de papel, renegando o próprio conhecimento a um fator secundário.

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Foto: Estevão Balado

Papel pra quê!? Não importa… Agora Alex e todos os outros só querem aprender.

Depois da forte emoção ao me despedir das crianças da escola, fiquei a pensar em Huamachuco, em sua riqueza singular – cultural, histórica, geográfica, humana – em sua terra arenosa que fala e transpira – um sentimento misto de paz e inquietação. Paz pela sua natureza fabulosa, fascinante e operante – nos ‘’cerros’’ imponentes que cercam a cidade e inquietação por ver sua identidade se esvair a cada dia, em que uma criança passa a trabalhar para os mineradores-abutres que controlam a cidade com suas próprias mãos.

Quantos Alex’s’ serão salvos desse infanticídio diário?

Quantos Alex’s’ lá estão, perdendo a brincadeira, a inocência e o sorriso de cada dia se transformando em mãos calejadas de um trabalho imoral?

Alex, criando me ensinou o que Galeno poetizou.

E, com as unhas grandes e escuras, termino esse capítulo.

Sim, eu posso cortá-las.

 

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‘’Pensar é estar doente dos olhos’’

No cenário de naturalização do cotidiano, Rubem Alves dizia que: ‘’pensar é estar doente dos olhos’’.

Todos os dias, nos deparamos com a infeliz fotografia da desigualdade social, da invisibilidade das comunidades periféricas, da triste conclusão que ninguém sabe ou saberá quem é: Diilan ou Zoe.

Para aqueles que enxergam esse retrato cristalizado, tampouco significa que aprenderam a ver, pois o ato de ver angustia, machuca, adoece – mas transforma.  É ver na dor do mundo o seu próprio mundo de dor.

Existe uma juventude, majoritariamente universitária, que decidiu ver, sentir essa dor e, ao invés de se anestesiar, optou pelo caminho da ação. Um espírito solidário, altruísta e transformador inspira o grupo de educadores do projeto La Otra Educación, em Santiago, no Chile.

Um projeto de escolas livres, iniciado em 2009, com base em educação popular e que trabalha com jovens de comunidades à margem da ‘’grande’’ Santiago. Em 2014, o projeto se transformou numa organização não governamental (ONG) com o objetivo de pleitear financiamento estatal para sua expansão em mais comunidades carentes. Já são quatro escolas livres – La Faena, La Chascona, Escritores de Chile e Santa Olga – em distintas comunidades de Santiago.

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Foto: Estevão Balado

Sim, escolas! Escola não é um espaço físico fechado. Tampouco um lugar aonde se vai de segunda a sexta e se aprende somente meros conteúdos formais. Dentro desses espaços, auto-gestionados, todos e todas têm nome, voz, e são sujeitos de direito, não importando a idade ou gênero. Através de jornadas aos sábados, os monitores e monitoras desenvolvem o pensamento crítico, discutem questões de gênero, violências físicas e simbólicas, o respeito ao outro, a importância de compartilhar, da comida ao escutar, e a força da construção coletiva. Formam-se círculos de debate, oficinas de construção de cada tema abordado, assembleias, intercâmbio entre os projetos e café da manhã comunitário, onde também confraternizam e aprendem a repartir.

O trabalho não é pouco, ainda mais num país, um dos poucos na América do Sul, onde não existe uma lei que protege e garanta que crianças e adolescentes disfrutem de seus direitos. La Otra Educación contribui para o desenvolvimento de uma educação verdadeiramente emancipatória.

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Foto: Estevão Balado

Confesso que nada me chamou mais a atenção do que ver educadores tão engajados nesse processo de construção e luta pela transformação da realidade. Não se trata de assistencialismo, da construção para o outro, do fazer sem se envolver – como se houvesse uma metodologia pronta para a mudança dos paradigmas sociais. Através de um trabalho horizontal, pude ver educadores cientes que a educação se faz com o outro, num aprendizado interacional, onde a identidade do educador permanece em constante mutação.

Não recebem nenhum tipo de suporte financeiro e ainda colocam dinheiro do próprio bolso para desenvolver as jornadas todos os sábados. Isso sem falar das inúmeras reuniões de núcleos/gerais para organizarem o projeto, ou seja, escolheram o caminho da doação, da entrega, da militância e do engajamento, para atingirem uma transformação profunda.

Em cada entrevista que fizemos, pude sentir fortemente o brilho dos olhos dxs envolvidxs com o projeto e o belo trabalho que desenvolvem fortalecendo o sentimento de pertencimento, o espírito de comunidade. As crianças, as famílias e os demais moradores ajudam a construir cada uma das escolas ao lado dos monitores e monitoras – possuindo uma forte relação de admiração/respeito para com o trabalho desses profissionais.

Enquanto a educação alternativa precisa avançar na tarefa de não ser um projeto para uma minoria, com um capital cultural específico, La Otra Educación é a prova singular que tem gente engajada em ajudar na transformação de quem, historicamente, está invisível socialmente.

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Foto: Estevão Balado

Entretanto, desenvolver um trabalho emancipatório, enquanto essas crianças continuam frequentando uma escola tradicional que caminha, muitas vezes, num sentido oposto aos ideais do próprio projeto, é um desafio com o cronômetro disparado.

Acredito que não tardará para o projeto se tornar uma escola regular diária e, aí, como sabemos, outros desafios virão!

Se, com encontros em apenas um dia na semana, já é perceptível o desenvolvimento crítico e das potencialidades das crianças, imaginem com uma escola regular!?

Através de uma construção horizontal, fraterna, solidária, emancipatória e libertária entre todos e todas – LA OTRA EDUCACIÓN avança, contribuindo para a ‘’enfermidade’’ de novos olhares, como dizia Rubem Alves.

#Reconsidere

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

La Toma de Winterhill – A Ocupação de Winterhill

O recado está sendo mais do que dado. Seja no Brasil, no Chile ou em qualquer lugar: quando os ouvidos não escutam, os estudantes ocupam!

Não se trata meramente de dar voz aos estudantes.
Isso eles já têm.

A pergunta é: estamos ouvindo o que esses jovens têm a dizer?

O coletivo Reconsidere visitou uma escola ocupada no Chile – Winterhill, situada em Viña del Mar.

Tivemos a oportunidade de conhecer a luta dos estudantes organizados de Winterhill, uma escola privada, mas subvencionado pelo Estado – modalidade existente no país.

Para aqueles que ainda têm alguma dúvida da importância de se discutir o conceito de comunidade escolar, os estudantes de Winterhill explicam com enorme prioridade do que se trata. E mais, a importância de se valorizar esse sentimento.

Nós do Reconsidere apoiamos a luta desses jovens engajados que enxergam a transformação da realidade não como um processo natural futuro, senão pegando com as próprias mãos o presente que lhes pertence.

Aquele mesmo presente que a maioria das escolas tradicionais rechaça, em detrimento, de um projeto de futuro que acredita que os jovens hoje não são ninguém.

Nosso coletivo continuará apoiando, participando e construindo conjuntamente com os estudantes do Brasil, Chile e qualquer outro país a tão necessária revolução educacional inspirada por essa juventude.

Esse é o primeiro vídeo produzido no projeto Reconsidere – A Viagem, onde estamos viajando por 6 países da América do Sul conhecendo projetos alternativos de educação.

Acompanhe nosso trabalho.

Em breve, publicaremos mais vídeos em nosso canal e nas mídias sociais.

Trilha Sonora: Perota Chingó – músicas:
Un derecho de nacimiento
Inca Yuyo
La complicidad

Produção: Coletivo Reconsidere e Estudantes Organizados de Winterhill

Contato: odebateelivre@gruporeconsidere.com
Facebook: https://www.facebook.com/gruporeconsi
#LaTomaDelWinterhill #reconstruircomunidad
#‎Ocupatudo #‎vaiterprotesto #‎Reconsidere

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[Español]El mesaie está siendo más que dado. Sea en Brasil, en Chile o en cualquier lugar: cuando los oídos no escuchan, los estudiantes ocupan!

No se trata meramente de dar voz a los estudiantes. Eso ellos ya tienen. La pregunta és: ¿estamos oyendo lo que esos jóvenes tienen a decir?

El colectivo Reconsidere visitó una escuela ocupada en Chile – Winterhill, situado en Viña del Mar.

Tuvimos la oportunidad de conocer la lucha de los estudiantes organizados de Winterhill, una escuela privada, pero subvencionado por el Estado – modalidad existente en el país.

Para aquellos que aún tienen alguna duda de la importancia de discutirse el concepto de comunidad escolar, los estudiantes de Winterhill explican con enorme prioridad del que se trata. Y más, la importancia de valorarse ese sentimiento.

Nosotros, del Reconsidere, apoyamos la lucha de esos jóvenes engajados que miran la transformación de la realidad no como un proceso natural futuro, sino tomando con las propias manos el presente que les pertenece.

Ese mismo presente que la mayoría de las escuelas tradicionales les quita, en detrimento de un proyecto para el futuro que cree que los jóvenes de hoy no son nadie.

Nuestro colectivo seguirá apoyando, participando y construyendo junto con los estudiantes del Brasil, Chile y cualquier otro país la necesaria revolución educativa inspirada por estes jóvenes.

Este és el primer video producido en nuestro proyecto – Reconsidere El Viaje – donde estamos viajando en 6 países de América del Sur, visitando y documentando proyectos alternativos de educación.

Sigan acompañando nuestro trabajo.

En breve, publicaremos más videos en nuestro canal y en los medios de comunicación social que tenemos.

Banda sonora: Perota Chingó – Canciones:
Un derecho de nacimiento
Inca Yuyo
La complicidad

Assista mais aqui.

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

POR QUÊ? POR QUÊ? POR QUÊ?

105.120 questões. Esse é o número de perguntas que, em média, as crianças fazem por ano de acordo com um estudo britânico realizado em 2012, que também ressalta diante dos nossos olhos o número 390 – correspondente à quantidade de perguntas que, também em média, uma criança de 4 anos é capaz de fazer em um único dia. Refletindo, matematizando e filosofando, acredito, que a nossa capacidade questionadora caia exponencialmente conforme o desenrolar da vida. Obviamente, podemos continuar desenvolvendo questionamentos internos, mas certamente, durante esse processo, atenua-se consideravelmente o número de questionamentos externados. Cabe indagar – se são as perguntas que nos levam ao desenvolvimento humano e social – porque na maior parte do tempo estamos preocupados somente em dar respostas e não em indagar na mesma proporção?

Durante a vivência na Escuelita Libre y Feliz Ayekum, situada na Vila Alemana, no Chile, tive a oportunidade de conhecer muitas crianças incríveis, com uma capacidade questionadora latente, mas uma, em especial, me chamou a atenção. Seu nome é Vicente Martinez, 8 anos, filho da educadora Paola que trabalha no projeto que visitamos.

Uma criança que é a prova viva que a aprendizagem se dá através de perguntas e não somente de respostas prontas. Vicente é ‘’A’’ criança dos ‘’por quês’’. Sua imaginação percorre o mundo da fantasia e das diferentes áreas do conhecimento. Outro dia me perguntou, porque no Brasil não havia terremotos. Não soube responder. Depois, explicou:

Franco, acho que no Brasil ocorrem terremotos, pois existe movimentação sempre de placas. O fato de vocês não sentirem, não quer dizer que eles não aconteçam.

Estava de boquiaberto com seus conhecimentos de geografia que não terminaram ali. Aprendi que Rússia e Canadá são os países de maior extensão territorial no mundo, que no Chile, constantemente, há terremotos e riscos de tsunami, entre outras coisas.

Ao mesmo tempo em que a experiência de conhecer o Vicente me transformou em muitos sentidos, confesso que também tive um sentimento de frustração por, mais uma vez, constatar que no sistema escolar tradicional operante no mundo em que vivemos – a capacidade de questionar, de pensar criticamente sobre os diferentes conteúdos – é diariamente podada nas crianças, em detrimento de uma memorização que, na maioria das vezes, não passa de uma ‘’falsa aprendizagem’’ para ser aplicada em uma avaliação.

Aprendemos, quando nos transformamos e nos transformamos quando entendemos o significado do que estamos aprendendo.

Como desenvolver esse processo!?

Respeitando a curiosidade intrínseca nas crianças.

Vicente é um pesquisador por natureza, como todas as crianças quando nascem. É incrível sentir a pureza e o brilho dos seus olhos na leitura do mundo que o cerca. Não tenho dúvida que sua vivência na ‘’Escuelita Libre y Feliz’’ está sendo muito importante no desenvolvimento da sua essência livre e questionadora. Na escola, que possui um método particular chamado Lefebre Lever, criado e implementado pela educadora chilena Maria Verônica, não existem divisões dos estudantes por turmas, provas, notas e aulas tradicionais. Os conteúdos do currículo oficial chileno são trabalhados de uma maneira diferente – respeitando muito mais o tempo de cada criança. Valoriza-se a prática de se filosofar por filosofar, mediação de conflitos pelo diálogo constante e em cada semana, há saídas, onde os estudantes investigam diferentes temáticas, a partir do método científico. Trabalha-se uma pergunta base, realiza-se uma investigação, elaboram-se hipóteses, testam através de experimentos e depois de analisarem os resultados verificam a veracidade das hipóteses propostas.

Lembrei-me de uma charge sensacional do cartunista Carlos Ruas sobre o Einstein, que pode, perfeitamente, ser estendida ao debate de educação/vida: o sistema escolar tradicional trabalha com exclamações, enquanto, projetos como a ‘’Escuelita Libre y Feliz’’ trabalham com interrogações – o que se trata apenas, de respeitar a essência questionadora que nos move.

O ótimo documentário Educação Proibida, revela que 98% das crianças de 5 anos poderiam ser consideradas gênios (que também significa uma pessoa alegre e prazerosa), por sua curiosidade, criatividade e capacidade de pensamento divergente, ou seja, de solucionar problemas das formas mais diversas e criativas possíveis. Depois de 15 anos, apenas 10% ainda mantém essa característica.

Vamos continuar ignorando o que se passa nesses anos?

Em uma das conversas, Vicente me perguntou:

– Franco, por que a polícia no Brasil mata mais as pessoas pobres e negras? Não entendoooo!

 

Continue perguntando Vicente…

Charge do cartunista Carlos Ruas

 

 

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

A RECUPERAR LA EDUCACIÓN CHILENA

Con el derrocamiento del gobierno popular de Salvador Allende, en el año 1973, y la instalación de la dictadura cívico-militar liderada por el General Pinochet, la educación en Chile fue secuestrada por la elite, se entregó el futuro de nuestro país a los intereses de los explotadores y el mercado, es decir, al capitalismo.

Misma situación vivida en la mayoría de los países latinoamericanos, ante el avance de los sectores populares, la clase privilegiada, el empresariado, no dudo en reaccionar, manchando nuestra cordillera, nuestros mares, nuestras selvas, nuestros desierto, de sangre, desaparecidos y tortura.

En nuestro país, la educación pública fue desmantelada, algunas de sus medidas fueron: el estado dejó de conducir y liderar la gestión de las escuelas, liceos y universidades entregándole ese rol a las municipalidades, generándose grandes desigualdades entre las comunas con más y menos dinero, prohibición de la organización estudiantil, buscando eliminar la expresión y la democracia, se colocó la educación al servicio del mercado, desvinculándose completamente de la realidad del pueblo chileno, creación de múltiples universidades, centros de formación técnica e institutos profesionales privados, en contradicción con la baja de recursos en las instituciones públicas, entre muchas otras.

Con el pasar de los años, el pueblo chileno se ha movilizado firme y organizadamente para cambiar el legado de la dictadura en la educación, logrando algunos avances en esta materia, importancia histórica toma el ciclo de movilizaciones del año 2011, en donde el conjunto de la sociedad salió a las calles a manifestarse por una educación gratuita, libre, de excelencia y sin lucro.

Como jóvenes y niñxs, hoy tenemos una gran tarea, debemos seguir profundizando las luchas desarrollados en años pasados, por secundarios, universitarios, profesores y apoderados, alzando la voz e impulsando como elemento principal: LA RECUPERACIÓN DE LA EDUCACIÓN, es decir, el fortalecimiento de la educación pública, la democratización de los espacios educativos, la gratuidad universal para todxs lxs estudiantes y la vinculación de la educación con los intereses y necesidades de Chile y los sectores populares.

Para lograr nuestros objetivos, tenemos que usar todas las formas de movilización a nuestra disposición, sin temor a equivocarnos ni a represalias, las marchas, los paros, las ocupaciones, las intervenciones culturales, etc. lo que se nos ocurra; la creatividad tiene que ser explotada al máximo, esforzándonos por sumar, sumar y sumar; construyendo poco a poco, la nueva educación que Chile y Latinoamérica necesitan.

 

#Reconsidere

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA Educação

DESFORMAÇÃO DOCENTE

Toda vez que ouço o quão ruim são os cursos de licenciatura e formação docente, me pergunto: ruim para quem? Acredito que, para o obsoleto, mas ainda vivo sistema escolar ao qual estamos inseridos, os espaços de formação de professores ainda têm funcionado bem na manutenção de estruturas historicamente enraizadas. Uma preparação básica que, em geral, consiste em formar ‘’mestres’’ para dar aulas, na frente de uma turma, ditando o ritmo do que deve ser trabalhado, contextualizando, se possível, o conhecimento, e depois averiguando a aprendizagem através de avaliações, contínuas de preferência, o que se traduz, na maioria das vezes, em prova toda semana. E aí surge o pacote completo das notas, boletins…

De fato, em muitos momentos, nós educadores estamos de mãos atadas com a falta de liberdade para desenvolver um trabalho emancipador nos espaços em que atuamos, entretanto, a formação que recebemos nos faz pensar como aqueles que hierarquicamente estão acima da gente, nos fazendo também ‘’aceitar’’ os tais planejamentos pedagógicos como algo dado, natural ou pior – único.

Voltamos ao ciclo.

Fala-se em fazer diferente, mas mudamos o contorno e não o conteúdo. Cada vez mais as aulas estão travestidas de nova roupagem, mas de mesma essência. Aí está o ‘’X’’ da questão. Não adianta se discutir contextualização, interdisciplinaridade, transdisciplinaridade do ensino sem questionar esse modelo escolar, a quem ele atende e, principalmente, sem considerar, os interesses das crianças e jovens no fazer educativo.

A experiência de diálogo com os educadores e educadoras de cada projeto alternativo de educação que tenho visitado ao longo da viagem tem me feito refletir muito acerca desse tema. Em geral, se fala muito sobre a necessidade de repensarmos os espaços de formação de professores, em contrapartida, se fala pouco em como

A histórica formação docente, cujos professores passaram, em sua grande maioria, pelas instituições tradicionais como escolas e universidades, seguirá firme seu ciclo de reprodução, na medida em que, o postulante professor de hoje será o mesmo do amanhã.  A lógica é: professor do amanhã dará aula da maneira como ele recebeu.

Voltamos ao ciclo.

A formação docente também segue a mesma produção fabril, pela qual os estudantes vivem na escola tradicional, e num certo sentido, tem contribuído para perpetuação desse sistema escolar que segue reproduzindo uma sociedade competitiva, autoritária, hierarquizada e infeliz.

Com outra, infeliz, semelhança, o magistério é cada vez mais uma área pouco atrativa para os jovens, assim como a escola tem se tornado o espaço, aonde se chega, já querendo sair. A tristeza dos jovens a cada segunda-feira é a mesma de muitos docentes. Vivemos em um sistema escolar infeliz, mais profundamente, numa sociedade infeliz.  Não à toa, uma das principais causas relacionada à licença docente, na rede estadual do RJ, é a depressão. A taxa de exoneração docente na rede pública também é altíssima.

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Foto: Estevão Balado

Em 2014, mais de 1200 professores da rede estadual do Rio de Janeiro ficaram licenciados por depressão ou transtornos mentais, o que corresponde a 12,5% dos 9.680 mil docentes que tiraram licença médica no ano anterior.

Seguramente esse índice continuará crescendo, enquanto a formação docente continuar trabalhando com o desenvolvimento da expectativa docente. Chamo de expectativa – à necessidade, mesmo com a melhor das intenções, de planejar cada passo do que deve ser feito no dia a dia escolar e a resposta que se espera obter de cada estudante – como se a educação fosse um processo unilateral de estímulo-resposta, ou melhor, estímulo-silêncio-resposta.

Esse é um debate que precisamos fazer para além das injustas e históricas condições de desvalorização profissional.

Uma das maiores belezas do ato de educar reside, justamente, na imprevisibilidade dos acontecimentos. Os melhores momentos que vivi no magistério não foram planejados.  Apenas me permiti viver e sentir o momento construído com os jovens e não para eles.

Caso acreditemos que é importante o desenvolvimento da autonomia na educação, devemos refletir que não é possível desenvolvê-la, planejando a vida do outro – o que tão pouco, significa que os professores não possam ou não devam estimular e/ou sugerir projetos aos seus estudantes. A diferença é que cabe a eles decidirem se querem ou não participar de tais atividades. E que nesse processo, o docente esteja profundamente aberto para ser transformado.  Mas aí um professor pergunta: e se na minha atividade, importante para formação intelectual dos estudantes, eles não quiserem ficar no espaço? Aí vem a expectativa…

Existir estudantes dentro de espaços metodologicamente criados, não significa que estejam atentos, envolvidos, tão pouco aprendendo os conteúdos desenvolvidos na atividade. Então, por que obrigá-los?

Há diversas maneiras e momentos distintos para se construir os ‘’tais conhecimentos importantes’’ sem ser de forma impositiva, autoritária ou no tempo em que desejam os docentes.

Precisamos quebrar a ideia que existe professor preparado para o exercício de sua profissão e que um pedaço de papel atesta sua capacidade de lidar com algo tão complexo que é educar. Sejamos menos arrogantes. Relacionamo-nos com ‘’n’’ pessoas diferentes todos os dias, de realidades diferentes, interesses diferentes e ainda acreditamos que uma proposta de trabalho vá funcionar para todos e todas? Importante salientar, quem diz se funcionou ou não?

Estejamos em permanente (des)construção.

É importante para nós docentes, ampliarmos a maneira de como construímos o conhecimento junto aos estudantes. Acredito que uma aprendizagem mais significativa passa pela liberdade em que eles possam escolher o que querem aprender, no tempo em que querem aprender – o que mais uma vez, diga-se de passagem, não inviabiliza os estímulos que nós possamos dar. Sabendo de antemão, a linha tênue entre: estímulos, regulação e autonomia. Lidar com essa problemática faz parte do exercício emancipatório para os agentes envolvidos no processo educativo.

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Foto: Estevão Balado

É muito interessante ver que há tantos educadores fazendo um trabalho incrível em seus respectivos espaços ‘’alternativos’’, através de um permanente processo de desconstrução e de auto-aprendizagem. Afinal, não há universidade de formação docente que trabalhe especificamente com pedagogia alternativa e como formar esses novos educadores. Infelizmente fomos educados a encaixotar o conhecimento – a institucionalizá-lo. Quando pensamos em forma
ção docente, logo nos vem à cabeça a universidade. Quando não, nos vem também um prédio, uma sala de aula e um professor de professores. O magistério necessita de mais energia colocada na prática e na problematização coletiva da vivência pedagógica. O professor precisa deixar de ser um forasteiro solitário em uma jornada que, já sabemos – é anti-pedagógica. É fundamental a descentralização dessa carga pesada que os docentes carregam nos anos de quebra de expectativa, porque foram escolarizados a acreditar que educação se faz no seu tempo, da sua maneira, e no fundo não percebem que cada educando é um ser único, que precisa se autoconhecer para melhor desenvolver suas potencialidades.

Moacir Gadotti traz uma importante contribuição ao definir que a escola deve ser como um organismo vivo, onde todas as pessoas trabalham em conjunto e vivem no dia a dia a solidariedade. Nesse sentido, a emancipação só será possível se o professor e a comunidade escolar entender que o trabalho educacional não deve estar centralizado no professor.

Então, como deveria ser a formação docente?

Tampouco tenho uma resposta pronta, mas seguramente ela hoje não está nas universidades e cursos de formação num sentido amplo. Acredito que cada projeto educativo deva buscar desenvolver o seu espaço contínuo de formação docente, de maneira a respeitar as suas especificidades e da comunidade ao seu entorno.

Certamente, a possibilidade de se inovar num sistema escolar tão rígido, conservador, com conteúdos pré-programados com direções tão arcaicas, tornam os desafios muito maiores. Isso sem falar na desvalorização salarial, condições péssimas de trabalho e por aí vai…

A questão também passa pelo nosso olhar interior – falamos muito sobre liberdade, direitos e emancipação as crianças e jovens, mas quando pensamos nas ações, ainda estamos condicionados a reproduzir comportamentos de regulação.

Coloquemos professores para trabalhar com crianças livres. Certamente, a escola será para os adultos.

Para nós professores, o desafio de pensar em uma nova educação é o movimento de quebra de muitos paradigmas internos. Como afirma José Pacheco, ‘’o professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é!’’.

 

#Reconsidere

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA Educação

FAMÍLIAS, EDUCAÇÃO, RUPTURA, BABILÔNIA.

Muito se fala sobre a 13072945_998864716866785_819088960_oparticipação das famílias na construção do projeto político pedagógico das diferentes instituições escolares ser um dos grandes gargalos da educação. De um lado, profissionais da educação responsabilizando as famílias pela ausência. Do outro, as famílias que, diante de uma dinâmica intensa de trabalho e da necessidade do ganha-pão mensal, reclamam da falta de tempo para uma vivência mais próxima na educação escolar de seus filhos.

Que o modelo escolar tradicional, além de fábrica e prisão, também é um grande depósito não há menor dúvida, mas acredito que demasiada responsabilidade esteja sendo posta nas famílias enquanto, na verdade, pouco se considera que ela possa residir na conjuntura econômica-política-social-cultural que vivemos. A ‘’Babilônia’’ é, historicamente, o espaço do imediatismo, das relações humanas utilitárias, da lógica tempo/dinheiro, da superficialidade do olhar, da naturalização do cotidiano e, infelizmente, da terceirização da educação. Não se pode, portanto, culpar integralmente as famílias, pela suposta negligência educacional, descontextualizando o que vivem – tampouco, se deve isentar a responsabilidade que possuem no que tange à educação de seus filhos – mesmo nesse cenário de ‘’grande confusão’’.

Lembro-me sempre da experiência que tive na escola pública, onde muitas famílias, em situação de grande pobreza, pensavam na alimentação das crianças, antes de discutir ‘’desempenho escolar’’. Ainda hoje, muitos estudantes vão à escola, em primeiro lugar, para se alimentar. Até porque, só se discute educação, de barriga cheia.

E por que essa introdução gigante!?

Na experiência da viagem, tive a oportunidade de conhecer a Escola Caracol, situada em San Marcos Sierra, um povoado de aproximadamente 5.000 habitantes – na província de Córdoba. Uma escola fundada, organizada e vivida por famílias, que em sua maioria, migraram das grandes cidades para San Marcos, rompendo com muitos paradigmas da vida urbana.

Saem os prédios, entram as casinhas. Saem os prédios, entram as árvores. Saem os prédios, entram os olhares, que começam a se cruzar com fabulosa harmonia e com eles o fatídico sorriso. Belos e sinceros sorrisos, do mais singelo cumprimento ao enérgico abraço.

Havia esquecido como o céu podia ser azul, de como as estrelas podiam ser tão intensas e de como a lua podia ser tão brilhante.

Sai o individualismo, a frieza, a superficialidade. Entra a solidariedade, o amor, o respeito à individualidade e a força do coletivo.

Na escola Caracol, fundada há três anos, só há uma possibilidade para as famílias que desejam colocar seus filhos nesse espaço: imergir em seu projeto político pedagógico, e
m permanente construção, vivenciando-o integralmente. Não se trata de ir numa reunião ao fim do bimestre, para saber o desempenho escolar da criança – como se uma singela nota fosse sinônimo de aprendizagem. Até porque, não há provas, notas, muito menos, boletins… Num maravilhoso espaço físico, mergulhado na natureza, as ‘’famílias Caracol’’ se revezam diariamente, formando duplas e assumindo a função do que chamam de 13054539_998864696866787_438506488_o‘’portaria’’. Um conceito diferente de como atribuímos em terras brasileiras. As funções da portaria são: zelar pelo espaço físico da escola – limpando e organizando todos os materiais – preparando o café da manhã para todas as pessoas, auxiliando os demais educadores, se preciso. Essa função é desenvolvida uma vez por semana, durante dois meses, por cada dupla que se forma, ou seja, durante a semana pele menos dez pessoas diferentes participam da função de portaria. Em geral, um homem e uma mulher no exercício desse trabalho. Para os ‘’porteiros’’ essa experiência vai muito além da contribuição voluntária para a manutenção organizacional do espaço. Trata-se de acompanhar e viver a experiência da educação dos seus filhos de forma bem próxima, ajudando a construir diariamente um espaço transformador de educação. Há, sobretudo, muito respeito das famílias com o trabalho qu
e os maestros e professores desenvolvem, de modo que, não há interferência direta do que se está construindo junto às crianças, no dia em que estão trabalhando na escola.

Em diversas rodas de debate sobre educação, fala-se sobre a importância da comunidade escolar. A escola Caracol se constrói no plural e isso é uma de suas maiores virtudes. Enquanto muitos projetos de educação, inclusive os alternativos, sofrem com o pouco envolvimento das famílias em sua construção diária, as ’famílias Caracol’’ estão bem envolvidas com a escola, que a cada ano cresce mais em seu número de participantes. Um projeto que começou com cerca de trinta crianças, hoje possui o dobro.

Não há dúvida que a reflexão sobre os malefícios da vida urbana, a possibilidade de se pensar numa outra forma de educação e mais profundamente do modo de se viver – tem uma relação direta com o capital cultural das pessoas envolvidas. Em sua grande maioria, provenientes de classes sociais com maior poder aquisitivo, o que de forma alguma, deslegitima e/ou desqualifica o mundo novo que estão criando.

Vi uma comunidade desconstruindo o patriarcado, o machismo; repensando a alimentação, a gestação, o parto, a maneira de se relacionar com a natureza…

Enfim, o debate vai bem além da educação alternativa.


Cabe a pergunta: a solução então é deixarmos a ‘’Babilônia’’?13000499_998867963533127_1626872622_o

Experiências como da Escola Caracol nos brinda de esperança, para cada indivíduo com seus ideais, buscar plantar sementes de mudança no meio dessa grande confusão.

Ainda sonho em ver TODAS as escolas sendo construídas por famílias.

A mudança está em curso.

As ocupações dos estudantes nas escolas públicas brasileiras, por exemplo, estão dando seu recado e nos ensinando que educação só se conjuga no plural.

O primeiro passo é quebrar a estrutura piramidal, autoritária e centralizadora das instituições.

Ah, e as famílias terem o desejo efetivo de participarem desse processo.

Como?

Isso, só construindo juntos.

 

#Reconsidere