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Educação Inclusiva

Educação Inclusiva

Inclusão, só se for para todxs.

Por quantos anos você frequentou a escola? Desde a Educação Fundamental? Desde a creche? Quem sabe o berçário… Lá permaneceu até o Fundamental II? Quem sabe, o Ensino Médio?

Se tiver menos de trinta anos, talvez tenha frequentado também o Ensino Superior. Se essa é sua história, possivelmente, você não tenha deficiência. Mais possivelmente ainda, não tenha um transtorno mental. Tampouco viveu em situação de rua. Se essa é sua história, possivelmente, você consiga se recordar de uma ou duas pessoas, ao longo de todo seu período escolar, que vivesse uma das condições a que me referi acima.

Provavelmente, lembranças que podem ser contadas em uma das mãos. Pessoas em situação de grande vulnerabilidade social ou pessoas diagnosticadas com deficiência ou transtornos mentais não costumavam fazer parte do dia a dia escolar até o início dos anos 2000. Muitas vezes, sob a justificativa de que essas pessoas teriam necessidades tão específicas que só poderiam ser atendidas em serviços especializados, nós apoiamos e promovemos sua escolarização em espaços segregados.

A partir dos anos 2000, com o início das políticas de inclusão escolar, muito influenciadas pela Declaração de Salamanca, de 1994, passamos a refletir sobre o caráter excludente de nossas escolas, que não são organizadas para reconhecer e acolher a todos os seres humanos, com toda sua pluraridade de manifestações individuais, regionais, culturais, religiosas, etnicorraciais, etc.

As reflexões também partiam de outra consideração: a de que a convivência na diferença promove um processo de socialização mais rico, na medida em que nos coloca diante de novas possibilidades de singularização e nos permite pensar outras maneiras de ser, estar, agir, perceber, experimentar os objetos da cultura e as relações humanas. E isso é tarefa da escola, ora. É tarefa da escola apresentar mundos que permitam que saiamos de nós mesmos e possamos encontrar outros mundos para, então, reinventarmo-nos. Reinventarmos mundos.

Assim, reconhecer que a escola é lugar de viver relações e formas de estar no mundo, permite aprofundar nosso compromisso com um processo de socialização que não reproduza de maneira mecânica a vida que levamos, mas que crie novos possíveis.

Porque, como disse a filósofa Marilena Chaui, liberdade é inventar novos possíveis. Uma escola que se transforma para receber os humanos todos, não independentemente de suas diferenças – muito pelo contrário –, mas justamente considerando suas diferenças, poderia ser um importante passo no sentido de fortalecermos uma dimensão da escola que tem sido muito falada, mas quase nada experimentada: aquela que se compromete com o processo de humanização.

Defender a escolarização em conjunto para todxs não é um ato de caridade, de bondade ou meiguice. Não defendo a inclusão de todxs, em nome de um ou outro agrupamento humano. Defendo o direito à educação em conjunto para todxs porque aposto que é na relação com xs outrxs que criamos os novos possíveis e, portanto, avançamos em nossa liberdade de viver o humano em nós. Todxs nós, sem restrição.

[Re]Consideremos, portanto.

Biancha Angelucci Psicóloga, professora da Faculdade de Educação da USP. b.angelucci@usp.br