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Franco Castro

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA Educação

Quando os sonhos têm vez…

Acredito que a nossa capacidade de sonhar nos define enquanto seres humanos. Um ser sem sonho é um ser em ausência. Por isso, penso que qualquer luta social tem por essência a necessidade de produzir sonhos e deixar aflorar a expressão do nosso ser, de tal forma que até os mais lindos voos oprimidos ou esquecidos passem a ganhar nova forma e cor.

E se é para sonhar, que sonhemos alto!

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Foto: Estevão Balado

Ah, sem a inocência de que os sonhos se concretizam sem doação, entrega e amor em seu exercício.

Um grupo de famílias em Manaus, no norte do Brasil, possui um sonho comum a uma grande parcela da sociedade: a ressignificação da escola. Pública, diga-se de passagem. Porém, diferentemente daqueles que reclamam, mas nada fazem para alterar esse quadro, esse grupo decidiu transpor seus anseios e sonhos para o exercício prático da luta. Saíram do discurso. Criaram uma associação chamada Coletivo Escola Família Amazonas (CEFA), que nada mais é do que a sociedade civil organizada, ciente do seu poder, buscando intervir diretamente na transformação do que entendemos pela palavra: público.

Quando os conheci, fiquei abismado com o engajamento e disposição dessas famílias – a maior parte de classe média – que teriam total possibilidade de criar uma ‘’escola alternativa’’ no quintal da casa de um de seus membros.

Não. Claro que não…

Pensar em uma escola transformadora apenas para seus filhos seria pouco se não envolvesse aqueles que mais precisam e, que em nossa realidade, se encontram na esfera pública. Se o ato de educar é uma ação impregnada de amor, como pluralizar esse sentimento sem buscar abraçar o máximo de crianças possíveis!?

Em pouco mais de um ano de atuação do coletivo, três escolas de Manaus já estão desconstruindo sua proposta tradicional e iniciando um processo para repensar seus respectivos espaços físicos, as relações humanas e a maneira como se constrói comunidade e conhecimento.

Aqui, falamos de rupturas que vão além do conceito de aula, provas, seriação, criação de assembleias, roteiros de estudos, mesas em círculos… A defesa central é para a criação de escolas de gestão democrática, processos horizontais de tomadas de decisão, fortalecendo o conceito de comunidade de aprendizagem.

Pude viver um pouco desse processo nas escolas, onde tive a oportunidade de conhecer diversas pessoas maravilhosas. Mas, com uma criança, tive uma conexão de alma. Um daqueles encontros que não se explica. Apenas se sente. Após trocarmos poucas palavras, lá estávamos de mãos dadas, conhecendo seu reduto predileto na escola. Era o alto de uma linda árvore. Seu nome era João, filho da Ana Gouvêa, uma das fundadoras do CEFA. Uma criança incrível de 6 anos, com uma inquietude latente e olhos gigantes para o mundo, como quem sempre está antenado em tudo que acontece, mesmo que, por vezes, seu olhar parecesse distraído ou disperso. Quando lhe perguntei como surgiu o processo de criação dessas escolas, o João me explicou:

“A gente tentou várias escolas, só que não estava dando certo. Até que a gente teve a ideia de fazer uma escola. Só que eu digo fazer: não é construir com tijolos, fazer programando ela. Como se fosse um filme que eles estavam lançando.”

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Foto: Estevão Balado

Tudo começou como muitos projetos – da negação ao modelo tradicional de ensino – para então se pensar no que poderia ser feito. Visitaram escolas e projetos alternativos em São Paulo e no Rio de Janeiro para se alimentarem de esperança e enxergarem que é possível fazer diferente. Desde então, conseguiram apoio da Secretaria de Educação de Manaus e, duas escolas da cidade passaram a aderir a esse movimento. Além disso, inauguraram uma nova escola – piloto, onde estuda o João. Tudo isso me impressionava. Porém, o movimento mais audacioso que vi foi a aposta de alguns membros do coletivo de colocarem seus filhos nas escolas públicas. Desse modo, não atuariam apenas como CEFA, um movimento social, através de uma intervenção de fora para dentro, mas também como pais, na construção diária da escola que sonham para seus filhos e as demais crianças.

Isso para mim é uma grande ruptura de paradigmas.

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Foto: Estevão Balado

E assim, como um filme, as escolas estão a cada dia construindo seus roteiros de como esse projeto político pedagógico pode ganhar as tais formas e cores.  Um processo árduo e que sempre estará impregnado de contradições. Ainda mais se os caminhos não são construídos paulatinamente com muita reflexão. Nesse contexto, é fundamental o fortalecimento do debate com a comunidade ou a chance de ser cooptado e cair nas armadilhas do sistema capitalista é muito grande.

Como dizia Paulo Freire: ‘’Não basta saber ler que ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho’’.

Nesse processo é importante entender que cada realidade é uma. Cada espaço tem sua história, sua identidade. Não existe modelo de educação que possa ser replicado, mesmo quando há o encantamento com projetos alternativos que já desenvolvem esse “fazer diferente”.

O CEFA teve a coragem para começar a mudança e a disposição para viver todas as contradições desse processo. O caminho de desconstrução e de construção de uma identidade própria será difícil, mas esse sonho será possível apenas vivendo-o.  E, com muita reflexão coletiva.

Como dizia o João:

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Foto: Estevão Balado

‘’Como é uma escola democrática, a gente não paga. A gente participa das coisas. Isso faz a nossa escola ser diferente’’.

 

E no futuro? Como esses jovens atuarão em nossa sociedade?

O tal sonho se constrói com paciência, dedicação e o olhar constante para o interior. O que de fato acontecerá ninguém sabe. Acredito que o processo é sempre mais valioso que a substância final e o João é a prova viva de que é possível fazer diferente, ser diferente e valorizar a diferença, principalmente escutando o que as crianças têm a dizer.

 

#Reconsidere

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

TENTADOR, NÃO!?

Imagine sair da ‘’grande’’ cidade, do ensurdecedor barulho diário do caos que polui sonoramente, quimicamente e espiritualmente sua alma – seguramente já desgastada por essa infeliz rotina.

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Foto: Estevão Balado

Mudemos o cenário.

Passemos agora a viver numa comunidade com cerca de dez famílias, no meio das montanhas, num contato incrível com a natureza, buscando juntos criar uma maneira distinta de nos relacionarmos, de repensarmos a educação dos nossos filhos, assim como a sustentabilidade política e econômica desse espaço.

Esqueçamos as tradicionais moedas capitalistas. Trataremos de criar outra. Podemos chamá-la de ‘’sonho’’, que será apenas um símbolo representativo de troca entre as diferentes produções em nossa comunidade. O preço das coisas, poderíamos chamar de: ‘’apreço’’. Esqueça acumular, estocar, revender, lucrar.

Não. Cada um, de acordo com suas potencialidades e respeitando os interesses da própria comunidade, produz para si e para os demais o necessário para manutenção do espaço, onde a palavra compartilhar mais do que dita, será vivida.

Em termos de educação, não criaremos um espaço de aprendizagem só para crianças, mas para todos e todas, afinal nunca deixamos de aprender na vida. Não existirão, portanto, professores, senão que, nossas próprias famílias sinergicamente educarão as crianças entre si, aprendendo com elas e valorizando os diferentes conhecimentos relativos à comunidade.

No que tange à organização política do espaço, descartaremos o autoritarismo, a centralização de poder e as relações hierárquicas. Construiremos tudo de maneira horizontal, coletiva e consensual.

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Foto: Estevão Balado

Tentador, não!?

A que horas partimos?

Em diversas rodas de debate com amigos, divagando sobre utopias, chega-se ao momento da fatídica pergunta, daquela que desencadeia, por si só, como um efeito dominó, mais e mais perguntas…

É possível plantarmos a semente de um novo mundo estando dentro dele? Ou somente se ‘’isolando’’, se colocando fora? É possível sair, uma vez estando dentro do sistema?

Nesse momento, alguém geralmente bate na mesa e pergunta: você quer fugir para uma ilha ou disputar a babilônia?

Na experiência da viagem pude conhecer projetos educativos que buscam travar uma árdua e necessária disputa pela transformação da realidade, ou seja, não estão ‘’apenas’’ buscando a ressignificação do que entendemos pela educação, se isso não estiver a serviço de uma transformação mais complexa, profunda, do que entendemos por esse sistema sócio-econômico em que vivemos. Outras experiências preferem permanecer mais ‘’fechadas’’ em sua prática particular, buscando se colocar a margem desse sistema e se protegendo de qualquer ‘’contaminação exterior’’. Nasceram para dentro e assim desejam permanecer.

Sim, é complexo…

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Foto: Estevão Balado

É fato que, não transformaremos a escola, sem que a matemos. Sim, é preciso matar a instituição-escola que há dentro de nós, se desejamos sua mudança. Analogamente, não mudamos o sistema capitalista em que vivemos, sem admitirmos a força de sua introjeção em nós. Mais do que seus aspectos políticos e econômicos, me refiro à força de sua ideologia. Em diversos momentos estamos reproduzindo, sem pensar, a lógica do consumismo, da vaidade, da ganância, do individualismo, da competitividade… Reconhecer a força dessa ideologia é um importante passo no processo de desconstrução dela.

Che Guevara dizia que: ‘’não acredito que sejamos parentes muito próximos, mas se você é capaz de se agitar de indignação cada vez que se comete uma injustiça no mundo, somos companheiros, que é o mais importante’’.

Não há nenhuma dúvida sobre a força da América Latina enquanto uma grande comunidade de aprendizagem, onde as supostas fronteiras geográficas são rompidas pela expressão da educação transformadora, mesmo tratando-se de países diferentes, culturas diferentes e lugares que nunca se comunicaram. Nessas terras existe outra comunicação, uma mais sensível. Tratam-se dos olhares, dos corações, das almas que transcende qualquer dificuldade relacional entre as pessoas. Mais do falar, as pessoas se sentem.

E quando nos comunicamos, para onde vamos?

Aí surgem mais perguntas. A diversidade de ideias, pluralidade de interesses e a especificidade de cada um frente a sua realidade e história de vida, nos leva, em geral, para diferentes caminhos. Alguns dirão, temos que fugir da babilônia, dessa terra onde o amor é ocultado todos os dias pela fumaça de gás carbônico, em que se espera chegar a cada dia em algum lugar, como se a vida fosse o amanhã que tarda por se apresentar. Pela janela o mundo passa e onde estamos? Aonde vamos parar?

Alguns dirão, nessa terra não há solução, só insegurança. Então, por que ficar!?

Podemos sair e juntos construir a semente de um novo mundo, pois nesse não há como transformar sem se contaminar.

Outros questionarão: quantos possuem essa ‘’sorte’’, esse capital cultural e se dão ao luxo de refletirem a possibilidade dessa mudança, de repensar a vida, pois não existe em seu cotidiano a palavra morte!?

Continuarão: e se você sair, quem fica para resistir?

O sistema capitalista e sua metamórfica história possuem grande capacidade de fagocitar pessoas e por sua vez, suas ideias, seus projetos – levando-os ao cenário da mercantilização não só da educação, mas, sobretudo, da vida.

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Foto: Estevão Balado

A sua vida, seus ideais, seus sonhos se tornam rapidamente angariados e colocados numa prateleira, afinal alguém pode lucrar com isso, pensam os abutres.

Não é um debate fácil, nem um pouco resolutivo, mas em diversos momentos, me chama a atenção que a solução encontrada, por pessoas/coletivos/projetos para solucionar os problemas cotidianos de seus espaços de atuação, seja uma mera reprodução do próprio sistema que se almeja transformar.

Soluções que passam pela proibição, exclusão, negação, isolamento, acordos espúrios…

Há quem diga que são nos problemas que mostramos as nossas facetas.

Pode ser, mas em geral, somos contraditórios por natureza.

Para os utópicos, sonhadores e almejantes da transformação da realidade, refletir sobre os caminhos dessa estrada é se apequenar para se agigantar. E aí então responder: seremos sementes ou só ajudaremos a regar?

Educação

Há sempre luz num banho de sol

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É na cela que os olhos se apagam
Nos versos adormecidos, inertes, trancados
É na mesa que se risca o sofrimento de outrora, do agora…
– Vai embora!!!
E se chega à cela suprema que se retroalimenta
Na punição que exclui o diálogo,
Como se o fato existisse sem um passado.
Para quê investigar?
Vigiar e gritar ecoam notas graves do esporro ao anestesiar.
No ritmo ausente que se faz no presente
Com o pedido de clemência
Conjuga-se a negação do verbo resistência.
Painnnnn….
Fim do banho de sol,
Da interação interrompida
A angústia já se cria com a indisposição
As grades se fecham e se abrem os portões da lamentação.
E a ordem perpetua…
Da risada marginalizada
Da espontaneidade castrada
Da criatividade assassinada
E assim se justifica: ‘’ regras existem para serem respeitadas’’
A produção não para
Encaixota-se a criança para a venda do projeto de adulto estampado na fachada
Transmuta-se seriedade em competência
A brincadeira em imaturidade
Mata-se a curiosidade
Para emergia a obediência.
Domestica-se o comportamento
Mas nos vidros estalantes das janelas,
Ecoam os pensamentos
Esses sim, podem voar e fugir de qualquer confinamento.

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

DO OURO À INFÂNCIA

No livro ‘’ As veias abertas da América Latina’’, Galeano nos brinda com a reflexão:

‘’Na história dos homens, cada ato de destruição encontra sua resposta, cedo ou tarde, em um ato de criação’’.

Mais do que a sensibilidade de suas palavras, fico a refletir sobre a necessidade de mantermos sempre uma visão otimista do mundo, mesmo no cotidiano banal de injustiças.

Lembro-me de que uma vez, quando me perguntaram sobre a importância da educação alternativa, introduzi dizendo:

Só podemos discutir diferentes propostas educativas se as crianças estão de barriga cheia. Quando existe criança com fome, não se discute metodologia educativa…

Não podemos jamais perder de vista, não importa a profundidade da discussão no âmbito pedagógico-metodológico, que a educação é a arma mais latente e calibrada que temos para transformação social, emocional, desconstrução dos nossos males e emancipação de um ser. O disparo, se bem dado, faz estragos, pois aqueles e aquelas que saem serão agentes críticos, certeiros de seus alvos e sementes do caos e da prática de um novo mundo.

Não há bala saindo, mas sai esperança. Não há sangue no alvo, mas no alvo há luz. Não há choro coletivo, pois os sorrisos vencem o medo. Alguns tremerão quando a liberdade, efetivamente, vencer a opressão.

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Foto: Estevão Balado

Como, por exemplo, vence Alex, um jovem de 11 anos, que entregou ainda criança sua inocência e pureza em troca de trabalho nas minas de ouro de Huamachuco, cidade localizada no norte do Peru. Quando o conheci, me dei conta que suas mãos calejadas, de unhas grandes e escuras, denunciavam um tempo que nunca mais voltaria. Não foi fácil escutar de uma criança tão jovem que o cianeto é perigoso, tóxico e que pode fazer muito mal à saúde das pessoas que trabalham nas minas, podendo até matá-las.

Pensei…

Como admirar a beleza do voo de uma borboleta se uma das suas asas é cortada? Acreditaremos que borboletas não sabem voar ou que voam de maneira irregular e dependente.

Felizmente, as asas do Alex foram resgatadas pelos acompanhantes da Escola Democrática de Huamachuco – a primeira do Peru, diga-se de passagem. Criada em 2009, a escola oriunda de uma rede espalhada de projetos democráticos pelo mundo desenvolve um híbrido entre a pedagogia libertária e a pedagogia de projetos.  As crianças têm total liberdade para decidir onde querem estar, com quem querem estar e o que estarão fazendo em cada espaço.  Adendo importante – a fatídica expressão conservadora: ‘’não fazer nada’’- também é uma opção. As crianças, de diferentes idades, aprendem conjuntamente, participam de assembleias semanais com toda equipe profissional e possuem uma confiança incrível para expor o que pensam, respeitando muito as diferentes opiniões, assim como a vez de falar de cada um.

A escola, privada no sentido formal, trabalha com jovens de diferentes situações econômicas, onde as famílias realizam um aporte mensal de acordo com sua realidade financeira, de modo que, não há um valor mensal fixo e aqueles que não possuem condições de pagar têm bolsas que chegam a até 100%. Ou seja, a situação financeira de uma criança não é um critério de exclusão para entrada na Escola Democrática de Huamachuco. As famílias de maior poder aquisitivo possuem a noção que devem contribuir mais para cooperar com aquelas que não têm a mesma condição. Sem contar que os profissionais da escola, não importando a função que executam, apreendem o seu papel enquanto educadores e, portanto, participam de todas as atividades pedagógicas, ganhando o mesmo salário.

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Foto: Estevão Balado

Galeano ficaria feliz se conhecesse esse projeto de perto

A escola funciona de terça a sábado e possui educadores de diferentes áreas do conhecimento.  Estes são chamados de acompanhantes e propõem projetos para serem desenvolvidos com as crianças. Vários projetos me chamaram a atenção: oficina para tecer, música, mitos, carpintaria e chegando à energia eólica.

Neste projeto, lá estava Alex, atento, curioso e repleto de indagações/pensamentos acerca do tema. Impulsionado pelo seu acompanhante, o engenheiro Reiner, Alex mergulhou com os olhos, coração e toda sua energia no projeto. Viajou com seus amigos da escola e acompanhante para Trujillo – ‘’cidade grande’’ – cerca de quatro horas de Huamachuco – com intuito de conhecer uma empresa especializada no tema e  aprender ainda mais. Voltou para a Escola Democrática com o ímpeto juvenil de quem necessitava mostrar o que tinha aprendido. Não por arrogância intelectual, mas por puro diálogo e compartilhamento singelo de conhecimento.

No último dia de vivência na escola, pude ver um jovem rapaz de mãos calejadas, unhas grandes e escuras, levantando-as compulsivamente para explicar seu projeto de energia eólica para os demais estudantes e acompanhantes, que, atentos, participavam do seminário de apresentação. Alex e seus amigos construíram uma maquete bem elaborada para explicar como se dava o funcionamento de um sistema de produção dessa energia limpa. Explicaram sobre a construção e rotação das hélices, a compilação com o sistema de bobinas, formação de campo magnético e, através de um diodo, mostraram como se dá a transformação de energia mecânica em elétrica. Falaram sobre as vantagens e desvantagens dessa matriz energética e estavam super empolgados em ativar o sistema de energia eólica, já instalado na escola, mas ainda sem funcionamento. Em todos os momentos, Alex parecia o mais entusiasmado com o projeto, levantando a mão diversas vezes para tecer comentários, respostas ou perguntas precisas sobre o tema.

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Foto: Estevão Balado

No final da apresentação, Alex e os estudantes envolvidos nesse projeto ganharam do seu acompanhante um certificado de engenheiro júnior em energia eólica.

Costumava dizer: mais um pedaço de papel… Mas sei que para eles, o tal título era muito mais que arte emoldurada para ficar presa em parede.

Quando escutei de um dos meninos – O que eu faço com isso, tio!? Tive a certeza que os jovens da escola Democrática de Huamachuco caminham na pureza de valorizar o conhecimento pelo conhecimento, em detrimento de uma sociedade que busca incessantemente um pedaço de papel, renegando o próprio conhecimento a um fator secundário.

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Foto: Estevão Balado

Papel pra quê!? Não importa… Agora Alex e todos os outros só querem aprender.

Depois da forte emoção ao me despedir das crianças da escola, fiquei a pensar em Huamachuco, em sua riqueza singular – cultural, histórica, geográfica, humana – em sua terra arenosa que fala e transpira – um sentimento misto de paz e inquietação. Paz pela sua natureza fabulosa, fascinante e operante – nos ‘’cerros’’ imponentes que cercam a cidade e inquietação por ver sua identidade se esvair a cada dia, em que uma criança passa a trabalhar para os mineradores-abutres que controlam a cidade com suas próprias mãos.

Quantos Alex’s’ serão salvos desse infanticídio diário?

Quantos Alex’s’ lá estão, perdendo a brincadeira, a inocência e o sorriso de cada dia se transformando em mãos calejadas de um trabalho imoral?

Alex, criando me ensinou o que Galeno poetizou.

E, com as unhas grandes e escuras, termino esse capítulo.

Sim, eu posso cortá-las.

 

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

‘’Pensar é estar doente dos olhos’’

No cenário de naturalização do cotidiano, Rubem Alves dizia que: ‘’pensar é estar doente dos olhos’’.

Todos os dias, nos deparamos com a infeliz fotografia da desigualdade social, da invisibilidade das comunidades periféricas, da triste conclusão que ninguém sabe ou saberá quem é: Diilan ou Zoe.

Para aqueles que enxergam esse retrato cristalizado, tampouco significa que aprenderam a ver, pois o ato de ver angustia, machuca, adoece – mas transforma.  É ver na dor do mundo o seu próprio mundo de dor.

Existe uma juventude, majoritariamente universitária, que decidiu ver, sentir essa dor e, ao invés de se anestesiar, optou pelo caminho da ação. Um espírito solidário, altruísta e transformador inspira o grupo de educadores do projeto La Otra Educación, em Santiago, no Chile.

Um projeto de escolas livres, iniciado em 2009, com base em educação popular e que trabalha com jovens de comunidades à margem da ‘’grande’’ Santiago. Em 2014, o projeto se transformou numa organização não governamental (ONG) com o objetivo de pleitear financiamento estatal para sua expansão em mais comunidades carentes. Já são quatro escolas livres – La Faena, La Chascona, Escritores de Chile e Santa Olga – em distintas comunidades de Santiago.

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Foto: Estevão Balado

Sim, escolas! Escola não é um espaço físico fechado. Tampouco um lugar aonde se vai de segunda a sexta e se aprende somente meros conteúdos formais. Dentro desses espaços, auto-gestionados, todos e todas têm nome, voz, e são sujeitos de direito, não importando a idade ou gênero. Através de jornadas aos sábados, os monitores e monitoras desenvolvem o pensamento crítico, discutem questões de gênero, violências físicas e simbólicas, o respeito ao outro, a importância de compartilhar, da comida ao escutar, e a força da construção coletiva. Formam-se círculos de debate, oficinas de construção de cada tema abordado, assembleias, intercâmbio entre os projetos e café da manhã comunitário, onde também confraternizam e aprendem a repartir.

O trabalho não é pouco, ainda mais num país, um dos poucos na América do Sul, onde não existe uma lei que protege e garanta que crianças e adolescentes disfrutem de seus direitos. La Otra Educación contribui para o desenvolvimento de uma educação verdadeiramente emancipatória.

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Foto: Estevão Balado

Confesso que nada me chamou mais a atenção do que ver educadores tão engajados nesse processo de construção e luta pela transformação da realidade. Não se trata de assistencialismo, da construção para o outro, do fazer sem se envolver – como se houvesse uma metodologia pronta para a mudança dos paradigmas sociais. Através de um trabalho horizontal, pude ver educadores cientes que a educação se faz com o outro, num aprendizado interacional, onde a identidade do educador permanece em constante mutação.

Não recebem nenhum tipo de suporte financeiro e ainda colocam dinheiro do próprio bolso para desenvolver as jornadas todos os sábados. Isso sem falar das inúmeras reuniões de núcleos/gerais para organizarem o projeto, ou seja, escolheram o caminho da doação, da entrega, da militância e do engajamento, para atingirem uma transformação profunda.

Em cada entrevista que fizemos, pude sentir fortemente o brilho dos olhos dxs envolvidxs com o projeto e o belo trabalho que desenvolvem fortalecendo o sentimento de pertencimento, o espírito de comunidade. As crianças, as famílias e os demais moradores ajudam a construir cada uma das escolas ao lado dos monitores e monitoras – possuindo uma forte relação de admiração/respeito para com o trabalho desses profissionais.

Enquanto a educação alternativa precisa avançar na tarefa de não ser um projeto para uma minoria, com um capital cultural específico, La Otra Educación é a prova singular que tem gente engajada em ajudar na transformação de quem, historicamente, está invisível socialmente.

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Foto: Estevão Balado

Entretanto, desenvolver um trabalho emancipatório, enquanto essas crianças continuam frequentando uma escola tradicional que caminha, muitas vezes, num sentido oposto aos ideais do próprio projeto, é um desafio com o cronômetro disparado.

Acredito que não tardará para o projeto se tornar uma escola regular diária e, aí, como sabemos, outros desafios virão!

Se, com encontros em apenas um dia na semana, já é perceptível o desenvolvimento crítico e das potencialidades das crianças, imaginem com uma escola regular!?

Através de uma construção horizontal, fraterna, solidária, emancipatória e libertária entre todos e todas – LA OTRA EDUCACIÓN avança, contribuindo para a ‘’enfermidade’’ de novos olhares, como dizia Rubem Alves.

#Reconsidere

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA Educação

DESFORMAÇÃO DOCENTE

Toda vez que ouço o quão ruim são os cursos de licenciatura e formação docente, me pergunto: ruim para quem? Acredito que, para o obsoleto, mas ainda vivo sistema escolar ao qual estamos inseridos, os espaços de formação de professores ainda têm funcionado bem na manutenção de estruturas historicamente enraizadas. Uma preparação básica que, em geral, consiste em formar ‘’mestres’’ para dar aulas, na frente de uma turma, ditando o ritmo do que deve ser trabalhado, contextualizando, se possível, o conhecimento, e depois averiguando a aprendizagem através de avaliações, contínuas de preferência, o que se traduz, na maioria das vezes, em prova toda semana. E aí surge o pacote completo das notas, boletins…

De fato, em muitos momentos, nós educadores estamos de mãos atadas com a falta de liberdade para desenvolver um trabalho emancipador nos espaços em que atuamos, entretanto, a formação que recebemos nos faz pensar como aqueles que hierarquicamente estão acima da gente, nos fazendo também ‘’aceitar’’ os tais planejamentos pedagógicos como algo dado, natural ou pior – único.

Voltamos ao ciclo.

Fala-se em fazer diferente, mas mudamos o contorno e não o conteúdo. Cada vez mais as aulas estão travestidas de nova roupagem, mas de mesma essência. Aí está o ‘’X’’ da questão. Não adianta se discutir contextualização, interdisciplinaridade, transdisciplinaridade do ensino sem questionar esse modelo escolar, a quem ele atende e, principalmente, sem considerar, os interesses das crianças e jovens no fazer educativo.

A experiência de diálogo com os educadores e educadoras de cada projeto alternativo de educação que tenho visitado ao longo da viagem tem me feito refletir muito acerca desse tema. Em geral, se fala muito sobre a necessidade de repensarmos os espaços de formação de professores, em contrapartida, se fala pouco em como

A histórica formação docente, cujos professores passaram, em sua grande maioria, pelas instituições tradicionais como escolas e universidades, seguirá firme seu ciclo de reprodução, na medida em que, o postulante professor de hoje será o mesmo do amanhã.  A lógica é: professor do amanhã dará aula da maneira como ele recebeu.

Voltamos ao ciclo.

A formação docente também segue a mesma produção fabril, pela qual os estudantes vivem na escola tradicional, e num certo sentido, tem contribuído para perpetuação desse sistema escolar que segue reproduzindo uma sociedade competitiva, autoritária, hierarquizada e infeliz.

Com outra, infeliz, semelhança, o magistério é cada vez mais uma área pouco atrativa para os jovens, assim como a escola tem se tornado o espaço, aonde se chega, já querendo sair. A tristeza dos jovens a cada segunda-feira é a mesma de muitos docentes. Vivemos em um sistema escolar infeliz, mais profundamente, numa sociedade infeliz.  Não à toa, uma das principais causas relacionada à licença docente, na rede estadual do RJ, é a depressão. A taxa de exoneração docente na rede pública também é altíssima.

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Foto: Estevão Balado

Em 2014, mais de 1200 professores da rede estadual do Rio de Janeiro ficaram licenciados por depressão ou transtornos mentais, o que corresponde a 12,5% dos 9.680 mil docentes que tiraram licença médica no ano anterior.

Seguramente esse índice continuará crescendo, enquanto a formação docente continuar trabalhando com o desenvolvimento da expectativa docente. Chamo de expectativa – à necessidade, mesmo com a melhor das intenções, de planejar cada passo do que deve ser feito no dia a dia escolar e a resposta que se espera obter de cada estudante – como se a educação fosse um processo unilateral de estímulo-resposta, ou melhor, estímulo-silêncio-resposta.

Esse é um debate que precisamos fazer para além das injustas e históricas condições de desvalorização profissional.

Uma das maiores belezas do ato de educar reside, justamente, na imprevisibilidade dos acontecimentos. Os melhores momentos que vivi no magistério não foram planejados.  Apenas me permiti viver e sentir o momento construído com os jovens e não para eles.

Caso acreditemos que é importante o desenvolvimento da autonomia na educação, devemos refletir que não é possível desenvolvê-la, planejando a vida do outro – o que tão pouco, significa que os professores não possam ou não devam estimular e/ou sugerir projetos aos seus estudantes. A diferença é que cabe a eles decidirem se querem ou não participar de tais atividades. E que nesse processo, o docente esteja profundamente aberto para ser transformado.  Mas aí um professor pergunta: e se na minha atividade, importante para formação intelectual dos estudantes, eles não quiserem ficar no espaço? Aí vem a expectativa…

Existir estudantes dentro de espaços metodologicamente criados, não significa que estejam atentos, envolvidos, tão pouco aprendendo os conteúdos desenvolvidos na atividade. Então, por que obrigá-los?

Há diversas maneiras e momentos distintos para se construir os ‘’tais conhecimentos importantes’’ sem ser de forma impositiva, autoritária ou no tempo em que desejam os docentes.

Precisamos quebrar a ideia que existe professor preparado para o exercício de sua profissão e que um pedaço de papel atesta sua capacidade de lidar com algo tão complexo que é educar. Sejamos menos arrogantes. Relacionamo-nos com ‘’n’’ pessoas diferentes todos os dias, de realidades diferentes, interesses diferentes e ainda acreditamos que uma proposta de trabalho vá funcionar para todos e todas? Importante salientar, quem diz se funcionou ou não?

Estejamos em permanente (des)construção.

É importante para nós docentes, ampliarmos a maneira de como construímos o conhecimento junto aos estudantes. Acredito que uma aprendizagem mais significativa passa pela liberdade em que eles possam escolher o que querem aprender, no tempo em que querem aprender – o que mais uma vez, diga-se de passagem, não inviabiliza os estímulos que nós possamos dar. Sabendo de antemão, a linha tênue entre: estímulos, regulação e autonomia. Lidar com essa problemática faz parte do exercício emancipatório para os agentes envolvidos no processo educativo.

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Foto: Estevão Balado

É muito interessante ver que há tantos educadores fazendo um trabalho incrível em seus respectivos espaços ‘’alternativos’’, através de um permanente processo de desconstrução e de auto-aprendizagem. Afinal, não há universidade de formação docente que trabalhe especificamente com pedagogia alternativa e como formar esses novos educadores. Infelizmente fomos educados a encaixotar o conhecimento – a institucionalizá-lo. Quando pensamos em forma
ção docente, logo nos vem à cabeça a universidade. Quando não, nos vem também um prédio, uma sala de aula e um professor de professores. O magistério necessita de mais energia colocada na prática e na problematização coletiva da vivência pedagógica. O professor precisa deixar de ser um forasteiro solitário em uma jornada que, já sabemos – é anti-pedagógica. É fundamental a descentralização dessa carga pesada que os docentes carregam nos anos de quebra de expectativa, porque foram escolarizados a acreditar que educação se faz no seu tempo, da sua maneira, e no fundo não percebem que cada educando é um ser único, que precisa se autoconhecer para melhor desenvolver suas potencialidades.

Moacir Gadotti traz uma importante contribuição ao definir que a escola deve ser como um organismo vivo, onde todas as pessoas trabalham em conjunto e vivem no dia a dia a solidariedade. Nesse sentido, a emancipação só será possível se o professor e a comunidade escolar entender que o trabalho educacional não deve estar centralizado no professor.

Então, como deveria ser a formação docente?

Tampouco tenho uma resposta pronta, mas seguramente ela hoje não está nas universidades e cursos de formação num sentido amplo. Acredito que cada projeto educativo deva buscar desenvolver o seu espaço contínuo de formação docente, de maneira a respeitar as suas especificidades e da comunidade ao seu entorno.

Certamente, a possibilidade de se inovar num sistema escolar tão rígido, conservador, com conteúdos pré-programados com direções tão arcaicas, tornam os desafios muito maiores. Isso sem falar na desvalorização salarial, condições péssimas de trabalho e por aí vai…

A questão também passa pelo nosso olhar interior – falamos muito sobre liberdade, direitos e emancipação as crianças e jovens, mas quando pensamos nas ações, ainda estamos condicionados a reproduzir comportamentos de regulação.

Coloquemos professores para trabalhar com crianças livres. Certamente, a escola será para os adultos.

Para nós professores, o desafio de pensar em uma nova educação é o movimento de quebra de muitos paradigmas internos. Como afirma José Pacheco, ‘’o professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é!’’.

 

#Reconsidere

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA Educação

FAMÍLIAS, EDUCAÇÃO, RUPTURA, BABILÔNIA.

Muito se fala sobre a 13072945_998864716866785_819088960_oparticipação das famílias na construção do projeto político pedagógico das diferentes instituições escolares ser um dos grandes gargalos da educação. De um lado, profissionais da educação responsabilizando as famílias pela ausência. Do outro, as famílias que, diante de uma dinâmica intensa de trabalho e da necessidade do ganha-pão mensal, reclamam da falta de tempo para uma vivência mais próxima na educação escolar de seus filhos.

Que o modelo escolar tradicional, além de fábrica e prisão, também é um grande depósito não há menor dúvida, mas acredito que demasiada responsabilidade esteja sendo posta nas famílias enquanto, na verdade, pouco se considera que ela possa residir na conjuntura econômica-política-social-cultural que vivemos. A ‘’Babilônia’’ é, historicamente, o espaço do imediatismo, das relações humanas utilitárias, da lógica tempo/dinheiro, da superficialidade do olhar, da naturalização do cotidiano e, infelizmente, da terceirização da educação. Não se pode, portanto, culpar integralmente as famílias, pela suposta negligência educacional, descontextualizando o que vivem – tampouco, se deve isentar a responsabilidade que possuem no que tange à educação de seus filhos – mesmo nesse cenário de ‘’grande confusão’’.

Lembro-me sempre da experiência que tive na escola pública, onde muitas famílias, em situação de grande pobreza, pensavam na alimentação das crianças, antes de discutir ‘’desempenho escolar’’. Ainda hoje, muitos estudantes vão à escola, em primeiro lugar, para se alimentar. Até porque, só se discute educação, de barriga cheia.

E por que essa introdução gigante!?

Na experiência da viagem, tive a oportunidade de conhecer a Escola Caracol, situada em San Marcos Sierra, um povoado de aproximadamente 5.000 habitantes – na província de Córdoba. Uma escola fundada, organizada e vivida por famílias, que em sua maioria, migraram das grandes cidades para San Marcos, rompendo com muitos paradigmas da vida urbana.

Saem os prédios, entram as casinhas. Saem os prédios, entram as árvores. Saem os prédios, entram os olhares, que começam a se cruzar com fabulosa harmonia e com eles o fatídico sorriso. Belos e sinceros sorrisos, do mais singelo cumprimento ao enérgico abraço.

Havia esquecido como o céu podia ser azul, de como as estrelas podiam ser tão intensas e de como a lua podia ser tão brilhante.

Sai o individualismo, a frieza, a superficialidade. Entra a solidariedade, o amor, o respeito à individualidade e a força do coletivo.

Na escola Caracol, fundada há três anos, só há uma possibilidade para as famílias que desejam colocar seus filhos nesse espaço: imergir em seu projeto político pedagógico, e
m permanente construção, vivenciando-o integralmente. Não se trata de ir numa reunião ao fim do bimestre, para saber o desempenho escolar da criança – como se uma singela nota fosse sinônimo de aprendizagem. Até porque, não há provas, notas, muito menos, boletins… Num maravilhoso espaço físico, mergulhado na natureza, as ‘’famílias Caracol’’ se revezam diariamente, formando duplas e assumindo a função do que chamam de 13054539_998864696866787_438506488_o‘’portaria’’. Um conceito diferente de como atribuímos em terras brasileiras. As funções da portaria são: zelar pelo espaço físico da escola – limpando e organizando todos os materiais – preparando o café da manhã para todas as pessoas, auxiliando os demais educadores, se preciso. Essa função é desenvolvida uma vez por semana, durante dois meses, por cada dupla que se forma, ou seja, durante a semana pele menos dez pessoas diferentes participam da função de portaria. Em geral, um homem e uma mulher no exercício desse trabalho. Para os ‘’porteiros’’ essa experiência vai muito além da contribuição voluntária para a manutenção organizacional do espaço. Trata-se de acompanhar e viver a experiência da educação dos seus filhos de forma bem próxima, ajudando a construir diariamente um espaço transformador de educação. Há, sobretudo, muito respeito das famílias com o trabalho qu
e os maestros e professores desenvolvem, de modo que, não há interferência direta do que se está construindo junto às crianças, no dia em que estão trabalhando na escola.

Em diversas rodas de debate sobre educação, fala-se sobre a importância da comunidade escolar. A escola Caracol se constrói no plural e isso é uma de suas maiores virtudes. Enquanto muitos projetos de educação, inclusive os alternativos, sofrem com o pouco envolvimento das famílias em sua construção diária, as ’famílias Caracol’’ estão bem envolvidas com a escola, que a cada ano cresce mais em seu número de participantes. Um projeto que começou com cerca de trinta crianças, hoje possui o dobro.

Não há dúvida que a reflexão sobre os malefícios da vida urbana, a possibilidade de se pensar numa outra forma de educação e mais profundamente do modo de se viver – tem uma relação direta com o capital cultural das pessoas envolvidas. Em sua grande maioria, provenientes de classes sociais com maior poder aquisitivo, o que de forma alguma, deslegitima e/ou desqualifica o mundo novo que estão criando.

Vi uma comunidade desconstruindo o patriarcado, o machismo; repensando a alimentação, a gestação, o parto, a maneira de se relacionar com a natureza…

Enfim, o debate vai bem além da educação alternativa.


Cabe a pergunta: a solução então é deixarmos a ‘’Babilônia’’?13000499_998867963533127_1626872622_o

Experiências como da Escola Caracol nos brinda de esperança, para cada indivíduo com seus ideais, buscar plantar sementes de mudança no meio dessa grande confusão.

Ainda sonho em ver TODAS as escolas sendo construídas por famílias.

A mudança está em curso.

As ocupações dos estudantes nas escolas públicas brasileiras, por exemplo, estão dando seu recado e nos ensinando que educação só se conjuga no plural.

O primeiro passo é quebrar a estrutura piramidal, autoritária e centralizadora das instituições.

Ah, e as famílias terem o desejo efetivo de participarem desse processo.

Como?

Isso, só construindo juntos.

 

#Reconsidere

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA Educação

CABRA-CEGA

É no brilho dos olhos das crianças,

Na espontaneidade dos seus sentimentos,

Na risada mais calorosa e libertadora

Que a esperança de um novo mundo se faz.

Um mundo que precisa de amor, do resgate da curiosidade mais infantil,

Da solidariedade mais fraterna, do calor humano mais fortemente sentido.

Da energia do Valentin, da delicadeza da Júlia, do sorriso da Lucila, da sensibilidade da Erica, da generosidade da Neli.13035543_995343673885556_2123457384_o

A vida é a maior escola que temos.  Numa casa que transborda luz, na Avenida Boulevard, em Santa Fé, aprendi que o amor se constrói minuciosamente em cada gesto, cada olhar, cada conversa, cada brincadeira – contrariando a máxima que as pessoas precisam de tempo para se conhecer.

Debochamos desse tempo, quando em uma singela semana – quebramos o cotidiano e vivenciamos gargalhadas maravilhosas – viajando dos assuntos mais complexos aos mais banais.

A tal transformação, de que tanto falam, é atemporal. Trata-se da abertura dos nossos corações. Aprendi mais sobre educação, filosofia, existencialismo… no chão da cozinha, na calçada da rua, na beleza de um jardim e nas inúmeras brincadeiras com as crianças em uma semana, do que em muitos anos da minha vida.

Meus melhores professores de espanhol até agora foram Valetin (5 anos) e Júlia (9 anos). Quando os vejo no dia a dia, me dou conta do quanto burocratizamos a vida, naturalizamos o cotidiano opressor e quão necessário é o elemento do brincar na balança de tudo.

Fala-se muito em seriedade, em maturidade, mas fala-se pouco em brincadeira.13052599_995343717218885_1655104464_o

Fazia muito tempo que não brincava de pique-esconde, cabra-cega, pedra-papel e tesoura, construía aviões e os jogava loucamente pela casa…

Enfim, como diria o sociólogo Peter Berguer,  a tão falada maturidade é:

“ Um estado de mente que se acomodou, ajustou-se ao status quo e abandonou os sonhos selvagens de aventura e realização. Não é difícil perceber que a nossa noção de maturidade é funcional, na medida que ela dá ao indivíduo uma racionalização por ter encolhido os seus horizontes’’.

Viver com essa família me aproximou da cura da fase adulta.

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#Reconsidere

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA Educação

O que transmitimos verdadeiramente para o mundo para querer tanto de volta?

Não se constroem novas formas de educar sem completa entrega e doação, tampouco se constrói um novo mundo sem amor, solidariedade e espírito colaborativo.

12970223_991332007620056_1919447082_oAs palavras possuem uma força de transformação social fabulosa, inspiram e podem colocar o coração na sola do pé, pois nada é tão forte quanto agir. Temos referências educativas incríveis de todos os cantos do mundo. Poderia ficar horas listando os educadores que escreveram fragmentos fabulosos, mas nesse momento necessitamos de menos discursos e mais ações.

Há uma rede viva, crescente, de pessoas se unindo, e entendendo que não se conjuga educação na primeira pessoa do singular.  Ou se faz em construção coletiva, ou se faz em construção coletiva.  Pessoas que almejam desfrutar de um novo amanhecer e acreditam que essa transformação se dará na sinergia entre todos e todas.

A viagem não tem nem uma semana e já temos histórias de carinho e solidariedade incríveis com os novos amigos Hermanos que fizemos.

Estivemos hospedados na casa da jornalista e educadora Dolores do projeto Tierra Fértil, nos primeiros dias, onde vivenciamos ao máximo a generosidade humana. Uma doação sem acordos, expectativas ou desejos ocultos. A doação pela doação.

Na última 6°feira, viemos para um encontro de educação alternativa chamado EPEP em San Nicolas de los Arroyos, Argentina. Na correria de todo o processo, nos faltavam as cópias das autorizações de direito sobre o uso de imagem para nossa web-série, e conseguimos, aos 49 minutos do segundo tempo, encontrar uma loja que estava fechando, mas que gentilmente reabriu suas portas para nos atender. Estávamos acompanhados da amiga e educadora Malala, do Projeto Tierra Fértil, que intermediou o contato com os funcionários. Assim que perceberam nosso sotaque estrangeiro, disseram em tom sincero de preocupação, para ficarmos atentos aos argentinos. Nesse momento Malala interveio, desconstruindo essa visão generalizante, que muitos reproduzem.  Acrescentou que iríamos para um encontro, por exemplo, que reunia pessoas incríveis, solidárias e que muitas não se conheciam.

Um dos funcionários, nesse momento, disse: – Há pessoas e pessoas…12992227_991332737619983_1618751260_n

Esse diálogo só ratifica a ideia de que a grande escola é a vida.  Cada situação é um momento de aprendizagem e também de desconstrução do senso comum.

Voltando ao objetivo prático das impressões, para piorar a situação, o computador estava sem bateria e precisávamos recarregá-lo para imprimir o arquivo.  Falamos um pouco sobre a gente, o Brasil e a nossa proposta de produção da web-série sobre projetos alternativos de educação. Por conta d
e todo carinho e atenção dos trabalhadores decidimos presenteá-los com um CD da querida banda Barcamundi. Ficaram surpresos. Os amigos Aytorn, Lucas e Nehemias funcionários da loja Área Gráfica, não só foram incrivelmente solícitos e pacientes com as nossas demandas, como ‘’não satisfeitos’’, não nos cobraram nenhum centavo pelas 232 impressões que fizemos. Não se tratava de um escambo. Apenas generosidade.

Apenas?

A construção de outr13000425_991332044286719_732070637_oo ideal de mundo parte do nosso exercício de diálogo: interior e exterior. Para os educadores, sobretudo, os que vieram como eu, de uma formação engessada e castradora – o medo se faz muito presente. A repressão vivida quando criança se transforma no autoritarismo do presente e na desilusão do futuro. O ciclo de reproduções permanece ativo e para sair dessa lógica, somente em desconstrução e a certeza que devemos estar em constante mutação. É necessário um diálogo constante com nosso interior, enfrentar conceitos cristalizados, mas que podem ser rompidos. Compartilhar um bom vinho com nossas inseguranças. Não existe educação pronta, metodologia perfeita ou educador-herói, o que existe é a vivência e a crença de que podemos aprender todo o tempo. Em cada diálogo, sozinho ou em grupo há uma oportunidade latente de se expandir. Como encaramos esse processo é o que define o nosso aprendizado. Fomos escolarizados a reduzir conhecimento a currículos moldados, aprendizagem a quatro paredes e a ouvir e respeitar mais as pessoas de maior idade. Cada criança que eu me relaciono, por exemplo, me ensina com suas palavras e gestos a repensar minha forma de viver. A liberdade delas, no sorriso mais puro e genuíno ou no choro mais intenso e chamativo, me mostra o quanto estamos matando não só a educação, mas a chance de construirmos outra sociedade. Afinal, nós que a compomos.

A pergunta que não sai da minha cabeça nesse momento é: o que transmitimos verdadeiramente para o mundo para querer tanto de volta?

Não tenho dúvida que há uma força latente, viva nos seres humanos, que urge por desabrochar. A transmissão verdadeira do que somos e sentimos é uma forma de nos aproximarmos dessa transformação.

Não há transformação que se faça sem doação.

Não há novo mundo sem ressignificação das relações humanas.

Chega de não!

Falemos mais ‘’sim’’ para as pessoas e para o mundo.

São histórias assim que me fazem pensar pelo que lutamos.

‘’Eu não nasci sem causa. Eu não nasci sem fé…’’

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#Reconsidere

CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

A arte de criançar – Tierra Fértil

 

Depois de tantos anos em que fui uma criança disciplinada e que cumpriu, obedientemente, as constantes imposições de cima pra baixo durante o período escolar e também universitário, venho há algum tempo, em outro movimento: resgatar uma criança adormecida, |presa|, mas que ainda pulsa dentro de mim.

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Franco de Castro em Tierra Fértil – Beccar – Argentina (Foto: Estevão Balado)

Hoje foi mais um dia de um encontro pessoal, transcendental e revigorante com crianças literalmente livres. No projeto Tierra Fértil (Argentina), que surgiu em 2012, não existe regulação, direcionamento ou podagem. O que se tem é a liberdade viva. Crianças aprendendo brincando, cada uma administrando integralmente o seu tempo, interagindo entre si e com o ambiente que as cerca. Esqueçam as divisões tradicionais de espaço, aula, professor de disciplinas, provas, autoritarismo…

Sua pedagogia não leva uma assinatura específica, são inúmeras fontes teóricas, mas senti forte influência da experiência de Summerhill School – espaço libertário fabuloso criado pelo educador Alexander Neill, na Inglaterra, em 1921. Experiência viva até os dias de hoje.

Em Tierra Fértil, temos um espaço investigativo, que valoriza a vivência e o aprendizado prático. As famílias, que deram vida a essa interessante iniciativa, venceram o medo e a desconfiança na esperança de fazer uma nova educação.

“El 95% de los adultos se convence que la educación tiene que ser una tortura y un esfuerzo, porque si no es una tortura y un esfuerzo entonces mi hijo no va a entender el significado del esfuerzo” afirma a educadora Dolores do projeto.

A verdade é que entre a problematização da educação até sua mudança efetiva, existe um abismo, onde poucos se arriscam.

Tierra Fértil está se aventurando, construindo o conhecimento muito além dos muros de sua bela casa em Béccar, bairro de San Isidro, na zona Norte de Buenos Aires.

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Franco de Castro em Tierra Fértil – Beccar – Argentina (Foto: Estevão Balado)

Tive o prazer de acompanhar a visita das crianças ao museu Lucy Mattos, de arte contemporânea, para interagirem com uma exposição que tratava da cultura africana e outra que abordava temáticas como: sociedade de consumo, ditadura da beleza, violência de gênero, a busca incessante pelo poder no sistema capitalista, meritocracia… Assuntos importantíssimos que não são devidamente contemplados na fatídica grade curricular. Diferentemente da minha época de estudante, onde só podíamos andar em fila indiana e ouvir, atenciosamente (?), a mediadora do museu e os professores, ao longo da visita, as crianças da Tierra Fértil estavam livres – interagindo e perguntando o que lhes interessavam, no tempo próprio delas.

Não faltaram perguntas e comentários.

Chamou-me a atenção à ida ao museu não ser um fato amplamente comemorado pelas crianças, como muitos estudantes dão berros de alegria quando não se tem
aula ou porque, simplesmente, surgiu a oportunidade de saírem do ambiente prisional escolar tradicional. Parecia apenas mais um de tantos outros momentos onde o conhecimento é construído para além dos muros do projeto. Fomos a pé para o Museu. Uma tranquila caminhada de 10 minutos, onde as crianças respeitaram as orientações dos educadores em todos os momentos.

Ao término da exposição, regressamos a casa do Projeto e voltamos a brincar. Joguei bola. Perdi uma partida de Resta Um. Joguei forca. Desenhei. Comi um maravilhoso lanche coletivo e tive a melhor aula de yoga da minha vida, protagonizadas pelas estudantes Antônia (9 anos) e Violeta (8 anos).

Por fim, essa experiência curta temporalmente, mas intensa em aprendizagem, só ratificou a ideia de que a educação não se faz com medo, repressão e autoritarismo, como muitos acreditam. Vi crianças aprendendo no riso e no choro, na brincadeira e no conflito. Afinal, não existe educação sem problemas. Tierra Fértil optou por vivê-los e enxergá-los como fonte latente de aprendizagem.

Conheci o Simon, Vitor, Antônia, Violeta, Vincent, entre tantas outras crianças, com um brilho nos olhos apaixonante, onde a sede pelo aprender se dá de forma natural, espontânea e potencialmente livre.

Reconheci uma criança que andava distante…

Continuo tentando me encontrar.
#Reconsidere