CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA Educação

Quando os sonhos têm vez…

Acredito que a nossa capacidade de sonhar nos define enquanto seres humanos. Um ser sem sonho é um ser em ausência. Por isso, penso que qualquer luta social tem por essência a necessidade de produzir sonhos e deixar aflorar a expressão do nosso ser, de tal forma que até os mais lindos voos oprimidos ou esquecidos passem a ganhar nova forma e cor.

E se é para sonhar, que sonhemos alto!

14876441_1133683490051573_8397619336939111887_o

Foto: Estevão Balado

Ah, sem a inocência de que os sonhos se concretizam sem doação, entrega e amor em seu exercício.

Um grupo de famílias em Manaus, no norte do Brasil, possui um sonho comum a uma grande parcela da sociedade: a ressignificação da escola. Pública, diga-se de passagem. Porém, diferentemente daqueles que reclamam, mas nada fazem para alterar esse quadro, esse grupo decidiu transpor seus anseios e sonhos para o exercício prático da luta. Saíram do discurso. Criaram uma associação chamada Coletivo Escola Família Amazonas (CEFA), que nada mais é do que a sociedade civil organizada, ciente do seu poder, buscando intervir diretamente na transformação do que entendemos pela palavra: público.

Quando os conheci, fiquei abismado com o engajamento e disposição dessas famílias – a maior parte de classe média – que teriam total possibilidade de criar uma ‘’escola alternativa’’ no quintal da casa de um de seus membros.

Não. Claro que não…

Pensar em uma escola transformadora apenas para seus filhos seria pouco se não envolvesse aqueles que mais precisam e, que em nossa realidade, se encontram na esfera pública. Se o ato de educar é uma ação impregnada de amor, como pluralizar esse sentimento sem buscar abraçar o máximo de crianças possíveis!?

Em pouco mais de um ano de atuação do coletivo, três escolas de Manaus já estão desconstruindo sua proposta tradicional e iniciando um processo para repensar seus respectivos espaços físicos, as relações humanas e a maneira como se constrói comunidade e conhecimento.

Aqui, falamos de rupturas que vão além do conceito de aula, provas, seriação, criação de assembleias, roteiros de estudos, mesas em círculos… A defesa central é para a criação de escolas de gestão democrática, processos horizontais de tomadas de decisão, fortalecendo o conceito de comunidade de aprendizagem.

Pude viver um pouco desse processo nas escolas, onde tive a oportunidade de conhecer diversas pessoas maravilhosas. Mas, com uma criança, tive uma conexão de alma. Um daqueles encontros que não se explica. Apenas se sente. Após trocarmos poucas palavras, lá estávamos de mãos dadas, conhecendo seu reduto predileto na escola. Era o alto de uma linda árvore. Seu nome era João, filho da Ana Gouvêa, uma das fundadoras do CEFA. Uma criança incrível de 6 anos, com uma inquietude latente e olhos gigantes para o mundo, como quem sempre está antenado em tudo que acontece, mesmo que, por vezes, seu olhar parecesse distraído ou disperso. Quando lhe perguntei como surgiu o processo de criação dessas escolas, o João me explicou:

“A gente tentou várias escolas, só que não estava dando certo. Até que a gente teve a ideia de fazer uma escola. Só que eu digo fazer: não é construir com tijolos, fazer programando ela. Como se fosse um filme que eles estavam lançando.”

14902811_1133683583384897_6319864198294341254_o

Foto: Estevão Balado

Tudo começou como muitos projetos – da negação ao modelo tradicional de ensino – para então se pensar no que poderia ser feito. Visitaram escolas e projetos alternativos em São Paulo e no Rio de Janeiro para se alimentarem de esperança e enxergarem que é possível fazer diferente. Desde então, conseguiram apoio da Secretaria de Educação de Manaus e, duas escolas da cidade passaram a aderir a esse movimento. Além disso, inauguraram uma nova escola – piloto, onde estuda o João. Tudo isso me impressionava. Porém, o movimento mais audacioso que vi foi a aposta de alguns membros do coletivo de colocarem seus filhos nas escolas públicas. Desse modo, não atuariam apenas como CEFA, um movimento social, através de uma intervenção de fora para dentro, mas também como pais, na construção diária da escola que sonham para seus filhos e as demais crianças.

Isso para mim é uma grande ruptura de paradigmas.

14902685_1133683630051559_6191923754156365334_o

Foto: Estevão Balado

E assim, como um filme, as escolas estão a cada dia construindo seus roteiros de como esse projeto político pedagógico pode ganhar as tais formas e cores.  Um processo árduo e que sempre estará impregnado de contradições. Ainda mais se os caminhos não são construídos paulatinamente com muita reflexão. Nesse contexto, é fundamental o fortalecimento do debate com a comunidade ou a chance de ser cooptado e cair nas armadilhas do sistema capitalista é muito grande.

Como dizia Paulo Freire: ‘’Não basta saber ler que ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho’’.

Nesse processo é importante entender que cada realidade é uma. Cada espaço tem sua história, sua identidade. Não existe modelo de educação que possa ser replicado, mesmo quando há o encantamento com projetos alternativos que já desenvolvem esse “fazer diferente”.

O CEFA teve a coragem para começar a mudança e a disposição para viver todas as contradições desse processo. O caminho de desconstrução e de construção de uma identidade própria será difícil, mas esse sonho será possível apenas vivendo-o.  E, com muita reflexão coletiva.

Como dizia o João:

14859672_1133683713384884_6731756332304640268_o

Foto: Estevão Balado

‘’Como é uma escola democrática, a gente não paga. A gente participa das coisas. Isso faz a nossa escola ser diferente’’.

 

E no futuro? Como esses jovens atuarão em nossa sociedade?

O tal sonho se constrói com paciência, dedicação e o olhar constante para o interior. O que de fato acontecerá ninguém sabe. Acredito que o processo é sempre mais valioso que a substância final e o João é a prova viva de que é possível fazer diferente, ser diferente e valorizar a diferença, principalmente escutando o que as crianças têm a dizer.

 

#Reconsidere

Você pode gostar também

2 Comentários

  • Responder
    Gilda Gonçalves
    7 de novembro de 2016 às 11:14

    Caminhos de luta e esperança!

  • Responder
    Hélida Gmeiner Matta
    5 de novembro de 2016 às 16:07

    As aprendizagens partilhadas possíveis, nos diálogos entre quem pretende ensinar com quem era aprendiz. Reflexões que reacendem uma faísca de esperança… É preciso se agarrar a ela!

  • Deixe uma resposta