CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

TENTADOR, NÃO!?

Imagine sair da ‘’grande’’ cidade, do ensurdecedor barulho diário do caos que polui sonoramente, quimicamente e espiritualmente sua alma – seguramente já desgastada por essa infeliz rotina.

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Foto: Estevão Balado

Mudemos o cenário.

Passemos agora a viver numa comunidade com cerca de dez famílias, no meio das montanhas, num contato incrível com a natureza, buscando juntos criar uma maneira distinta de nos relacionarmos, de repensarmos a educação dos nossos filhos, assim como a sustentabilidade política e econômica desse espaço.

Esqueçamos as tradicionais moedas capitalistas. Trataremos de criar outra. Podemos chamá-la de ‘’sonho’’, que será apenas um símbolo representativo de troca entre as diferentes produções em nossa comunidade. O preço das coisas, poderíamos chamar de: ‘’apreço’’. Esqueça acumular, estocar, revender, lucrar.

Não. Cada um, de acordo com suas potencialidades e respeitando os interesses da própria comunidade, produz para si e para os demais o necessário para manutenção do espaço, onde a palavra compartilhar mais do que dita, será vivida.

Em termos de educação, não criaremos um espaço de aprendizagem só para crianças, mas para todos e todas, afinal nunca deixamos de aprender na vida. Não existirão, portanto, professores, senão que, nossas próprias famílias sinergicamente educarão as crianças entre si, aprendendo com elas e valorizando os diferentes conhecimentos relativos à comunidade.

No que tange à organização política do espaço, descartaremos o autoritarismo, a centralização de poder e as relações hierárquicas. Construiremos tudo de maneira horizontal, coletiva e consensual.

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Foto: Estevão Balado

Tentador, não!?

A que horas partimos?

Em diversas rodas de debate com amigos, divagando sobre utopias, chega-se ao momento da fatídica pergunta, daquela que desencadeia, por si só, como um efeito dominó, mais e mais perguntas…

É possível plantarmos a semente de um novo mundo estando dentro dele? Ou somente se ‘’isolando’’, se colocando fora? É possível sair, uma vez estando dentro do sistema?

Nesse momento, alguém geralmente bate na mesa e pergunta: você quer fugir para uma ilha ou disputar a babilônia?

Na experiência da viagem pude conhecer projetos educativos que buscam travar uma árdua e necessária disputa pela transformação da realidade, ou seja, não estão ‘’apenas’’ buscando a ressignificação do que entendemos pela educação, se isso não estiver a serviço de uma transformação mais complexa, profunda, do que entendemos por esse sistema sócio-econômico em que vivemos. Outras experiências preferem permanecer mais ‘’fechadas’’ em sua prática particular, buscando se colocar a margem desse sistema e se protegendo de qualquer ‘’contaminação exterior’’. Nasceram para dentro e assim desejam permanecer.

Sim, é complexo…

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Foto: Estevão Balado

É fato que, não transformaremos a escola, sem que a matemos. Sim, é preciso matar a instituição-escola que há dentro de nós, se desejamos sua mudança. Analogamente, não mudamos o sistema capitalista em que vivemos, sem admitirmos a força de sua introjeção em nós. Mais do que seus aspectos políticos e econômicos, me refiro à força de sua ideologia. Em diversos momentos estamos reproduzindo, sem pensar, a lógica do consumismo, da vaidade, da ganância, do individualismo, da competitividade… Reconhecer a força dessa ideologia é um importante passo no processo de desconstrução dela.

Che Guevara dizia que: ‘’não acredito que sejamos parentes muito próximos, mas se você é capaz de se agitar de indignação cada vez que se comete uma injustiça no mundo, somos companheiros, que é o mais importante’’.

Não há nenhuma dúvida sobre a força da América Latina enquanto uma grande comunidade de aprendizagem, onde as supostas fronteiras geográficas são rompidas pela expressão da educação transformadora, mesmo tratando-se de países diferentes, culturas diferentes e lugares que nunca se comunicaram. Nessas terras existe outra comunicação, uma mais sensível. Tratam-se dos olhares, dos corações, das almas que transcende qualquer dificuldade relacional entre as pessoas. Mais do falar, as pessoas se sentem.

E quando nos comunicamos, para onde vamos?

Aí surgem mais perguntas. A diversidade de ideias, pluralidade de interesses e a especificidade de cada um frente a sua realidade e história de vida, nos leva, em geral, para diferentes caminhos. Alguns dirão, temos que fugir da babilônia, dessa terra onde o amor é ocultado todos os dias pela fumaça de gás carbônico, em que se espera chegar a cada dia em algum lugar, como se a vida fosse o amanhã que tarda por se apresentar. Pela janela o mundo passa e onde estamos? Aonde vamos parar?

Alguns dirão, nessa terra não há solução, só insegurança. Então, por que ficar!?

Podemos sair e juntos construir a semente de um novo mundo, pois nesse não há como transformar sem se contaminar.

Outros questionarão: quantos possuem essa ‘’sorte’’, esse capital cultural e se dão ao luxo de refletirem a possibilidade dessa mudança, de repensar a vida, pois não existe em seu cotidiano a palavra morte!?

Continuarão: e se você sair, quem fica para resistir?

O sistema capitalista e sua metamórfica história possuem grande capacidade de fagocitar pessoas e por sua vez, suas ideias, seus projetos – levando-os ao cenário da mercantilização não só da educação, mas, sobretudo, da vida.

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Foto: Estevão Balado

A sua vida, seus ideais, seus sonhos se tornam rapidamente angariados e colocados numa prateleira, afinal alguém pode lucrar com isso, pensam os abutres.

Não é um debate fácil, nem um pouco resolutivo, mas em diversos momentos, me chama a atenção que a solução encontrada, por pessoas/coletivos/projetos para solucionar os problemas cotidianos de seus espaços de atuação, seja uma mera reprodução do próprio sistema que se almeja transformar.

Soluções que passam pela proibição, exclusão, negação, isolamento, acordos espúrios…

Há quem diga que são nos problemas que mostramos as nossas facetas.

Pode ser, mas em geral, somos contraditórios por natureza.

Para os utópicos, sonhadores e almejantes da transformação da realidade, refletir sobre os caminhos dessa estrada é se apequenar para se agigantar. E aí então responder: seremos sementes ou só ajudaremos a regar?

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