CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

DO OURO À INFÂNCIA

No livro ‘’ As veias abertas da América Latina’’, Galeano nos brinda com a reflexão:

‘’Na história dos homens, cada ato de destruição encontra sua resposta, cedo ou tarde, em um ato de criação’’.

Mais do que a sensibilidade de suas palavras, fico a refletir sobre a necessidade de mantermos sempre uma visão otimista do mundo, mesmo no cotidiano banal de injustiças.

Lembro-me de que uma vez, quando me perguntaram sobre a importância da educação alternativa, introduzi dizendo:

Só podemos discutir diferentes propostas educativas se as crianças estão de barriga cheia. Quando existe criança com fome, não se discute metodologia educativa…

Não podemos jamais perder de vista, não importa a profundidade da discussão no âmbito pedagógico-metodológico, que a educação é a arma mais latente e calibrada que temos para transformação social, emocional, desconstrução dos nossos males e emancipação de um ser. O disparo, se bem dado, faz estragos, pois aqueles e aquelas que saem serão agentes críticos, certeiros de seus alvos e sementes do caos e da prática de um novo mundo.

Não há bala saindo, mas sai esperança. Não há sangue no alvo, mas no alvo há luz. Não há choro coletivo, pois os sorrisos vencem o medo. Alguns tremerão quando a liberdade, efetivamente, vencer a opressão.

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Foto: Estevão Balado

Como, por exemplo, vence Alex, um jovem de 11 anos, que entregou ainda criança sua inocência e pureza em troca de trabalho nas minas de ouro de Huamachuco, cidade localizada no norte do Peru. Quando o conheci, me dei conta que suas mãos calejadas, de unhas grandes e escuras, denunciavam um tempo que nunca mais voltaria. Não foi fácil escutar de uma criança tão jovem que o cianeto é perigoso, tóxico e que pode fazer muito mal à saúde das pessoas que trabalham nas minas, podendo até matá-las.

Pensei…

Como admirar a beleza do voo de uma borboleta se uma das suas asas é cortada? Acreditaremos que borboletas não sabem voar ou que voam de maneira irregular e dependente.

Felizmente, as asas do Alex foram resgatadas pelos acompanhantes da Escola Democrática de Huamachuco – a primeira do Peru, diga-se de passagem. Criada em 2009, a escola oriunda de uma rede espalhada de projetos democráticos pelo mundo desenvolve um híbrido entre a pedagogia libertária e a pedagogia de projetos.  As crianças têm total liberdade para decidir onde querem estar, com quem querem estar e o que estarão fazendo em cada espaço.  Adendo importante – a fatídica expressão conservadora: ‘’não fazer nada’’- também é uma opção. As crianças, de diferentes idades, aprendem conjuntamente, participam de assembleias semanais com toda equipe profissional e possuem uma confiança incrível para expor o que pensam, respeitando muito as diferentes opiniões, assim como a vez de falar de cada um.

A escola, privada no sentido formal, trabalha com jovens de diferentes situações econômicas, onde as famílias realizam um aporte mensal de acordo com sua realidade financeira, de modo que, não há um valor mensal fixo e aqueles que não possuem condições de pagar têm bolsas que chegam a até 100%. Ou seja, a situação financeira de uma criança não é um critério de exclusão para entrada na Escola Democrática de Huamachuco. As famílias de maior poder aquisitivo possuem a noção que devem contribuir mais para cooperar com aquelas que não têm a mesma condição. Sem contar que os profissionais da escola, não importando a função que executam, apreendem o seu papel enquanto educadores e, portanto, participam de todas as atividades pedagógicas, ganhando o mesmo salário.

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Foto: Estevão Balado

Galeano ficaria feliz se conhecesse esse projeto de perto

A escola funciona de terça a sábado e possui educadores de diferentes áreas do conhecimento.  Estes são chamados de acompanhantes e propõem projetos para serem desenvolvidos com as crianças. Vários projetos me chamaram a atenção: oficina para tecer, música, mitos, carpintaria e chegando à energia eólica.

Neste projeto, lá estava Alex, atento, curioso e repleto de indagações/pensamentos acerca do tema. Impulsionado pelo seu acompanhante, o engenheiro Reiner, Alex mergulhou com os olhos, coração e toda sua energia no projeto. Viajou com seus amigos da escola e acompanhante para Trujillo – ‘’cidade grande’’ – cerca de quatro horas de Huamachuco – com intuito de conhecer uma empresa especializada no tema e  aprender ainda mais. Voltou para a Escola Democrática com o ímpeto juvenil de quem necessitava mostrar o que tinha aprendido. Não por arrogância intelectual, mas por puro diálogo e compartilhamento singelo de conhecimento.

No último dia de vivência na escola, pude ver um jovem rapaz de mãos calejadas, unhas grandes e escuras, levantando-as compulsivamente para explicar seu projeto de energia eólica para os demais estudantes e acompanhantes, que, atentos, participavam do seminário de apresentação. Alex e seus amigos construíram uma maquete bem elaborada para explicar como se dava o funcionamento de um sistema de produção dessa energia limpa. Explicaram sobre a construção e rotação das hélices, a compilação com o sistema de bobinas, formação de campo magnético e, através de um diodo, mostraram como se dá a transformação de energia mecânica em elétrica. Falaram sobre as vantagens e desvantagens dessa matriz energética e estavam super empolgados em ativar o sistema de energia eólica, já instalado na escola, mas ainda sem funcionamento. Em todos os momentos, Alex parecia o mais entusiasmado com o projeto, levantando a mão diversas vezes para tecer comentários, respostas ou perguntas precisas sobre o tema.

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Foto: Estevão Balado

No final da apresentação, Alex e os estudantes envolvidos nesse projeto ganharam do seu acompanhante um certificado de engenheiro júnior em energia eólica.

Costumava dizer: mais um pedaço de papel… Mas sei que para eles, o tal título era muito mais que arte emoldurada para ficar presa em parede.

Quando escutei de um dos meninos – O que eu faço com isso, tio!? Tive a certeza que os jovens da escola Democrática de Huamachuco caminham na pureza de valorizar o conhecimento pelo conhecimento, em detrimento de uma sociedade que busca incessantemente um pedaço de papel, renegando o próprio conhecimento a um fator secundário.

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Foto: Estevão Balado

Papel pra quê!? Não importa… Agora Alex e todos os outros só querem aprender.

Depois da forte emoção ao me despedir das crianças da escola, fiquei a pensar em Huamachuco, em sua riqueza singular – cultural, histórica, geográfica, humana – em sua terra arenosa que fala e transpira – um sentimento misto de paz e inquietação. Paz pela sua natureza fabulosa, fascinante e operante – nos ‘’cerros’’ imponentes que cercam a cidade e inquietação por ver sua identidade se esvair a cada dia, em que uma criança passa a trabalhar para os mineradores-abutres que controlam a cidade com suas próprias mãos.

Quantos Alex’s’ serão salvos desse infanticídio diário?

Quantos Alex’s’ lá estão, perdendo a brincadeira, a inocência e o sorriso de cada dia se transformando em mãos calejadas de um trabalho imoral?

Alex, criando me ensinou o que Galeno poetizou.

E, com as unhas grandes e escuras, termino esse capítulo.

Sim, eu posso cortá-las.

 

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