CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

‘’Pensar é estar doente dos olhos’’

No cenário de naturalização do cotidiano, Rubem Alves dizia que: ‘’pensar é estar doente dos olhos’’.

Todos os dias, nos deparamos com a infeliz fotografia da desigualdade social, da invisibilidade das comunidades periféricas, da triste conclusão que ninguém sabe ou saberá quem é: Diilan ou Zoe.

Para aqueles que enxergam esse retrato cristalizado, tampouco significa que aprenderam a ver, pois o ato de ver angustia, machuca, adoece – mas transforma.  É ver na dor do mundo o seu próprio mundo de dor.

Existe uma juventude, majoritariamente universitária, que decidiu ver, sentir essa dor e, ao invés de se anestesiar, optou pelo caminho da ação. Um espírito solidário, altruísta e transformador inspira o grupo de educadores do projeto La Otra Educación, em Santiago, no Chile.

Um projeto de escolas livres, iniciado em 2009, com base em educação popular e que trabalha com jovens de comunidades à margem da ‘’grande’’ Santiago. Em 2014, o projeto se transformou numa organização não governamental (ONG) com o objetivo de pleitear financiamento estatal para sua expansão em mais comunidades carentes. Já são quatro escolas livres – La Faena, La Chascona, Escritores de Chile e Santa Olga – em distintas comunidades de Santiago.

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Foto: Estevão Balado

Sim, escolas! Escola não é um espaço físico fechado. Tampouco um lugar aonde se vai de segunda a sexta e se aprende somente meros conteúdos formais. Dentro desses espaços, auto-gestionados, todos e todas têm nome, voz, e são sujeitos de direito, não importando a idade ou gênero. Através de jornadas aos sábados, os monitores e monitoras desenvolvem o pensamento crítico, discutem questões de gênero, violências físicas e simbólicas, o respeito ao outro, a importância de compartilhar, da comida ao escutar, e a força da construção coletiva. Formam-se círculos de debate, oficinas de construção de cada tema abordado, assembleias, intercâmbio entre os projetos e café da manhã comunitário, onde também confraternizam e aprendem a repartir.

O trabalho não é pouco, ainda mais num país, um dos poucos na América do Sul, onde não existe uma lei que protege e garanta que crianças e adolescentes disfrutem de seus direitos. La Otra Educación contribui para o desenvolvimento de uma educação verdadeiramente emancipatória.

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Foto: Estevão Balado

Confesso que nada me chamou mais a atenção do que ver educadores tão engajados nesse processo de construção e luta pela transformação da realidade. Não se trata de assistencialismo, da construção para o outro, do fazer sem se envolver – como se houvesse uma metodologia pronta para a mudança dos paradigmas sociais. Através de um trabalho horizontal, pude ver educadores cientes que a educação se faz com o outro, num aprendizado interacional, onde a identidade do educador permanece em constante mutação.

Não recebem nenhum tipo de suporte financeiro e ainda colocam dinheiro do próprio bolso para desenvolver as jornadas todos os sábados. Isso sem falar das inúmeras reuniões de núcleos/gerais para organizarem o projeto, ou seja, escolheram o caminho da doação, da entrega, da militância e do engajamento, para atingirem uma transformação profunda.

Em cada entrevista que fizemos, pude sentir fortemente o brilho dos olhos dxs envolvidxs com o projeto e o belo trabalho que desenvolvem fortalecendo o sentimento de pertencimento, o espírito de comunidade. As crianças, as famílias e os demais moradores ajudam a construir cada uma das escolas ao lado dos monitores e monitoras – possuindo uma forte relação de admiração/respeito para com o trabalho desses profissionais.

Enquanto a educação alternativa precisa avançar na tarefa de não ser um projeto para uma minoria, com um capital cultural específico, La Otra Educación é a prova singular que tem gente engajada em ajudar na transformação de quem, historicamente, está invisível socialmente.

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Foto: Estevão Balado

Entretanto, desenvolver um trabalho emancipatório, enquanto essas crianças continuam frequentando uma escola tradicional que caminha, muitas vezes, num sentido oposto aos ideais do próprio projeto, é um desafio com o cronômetro disparado.

Acredito que não tardará para o projeto se tornar uma escola regular diária e, aí, como sabemos, outros desafios virão!

Se, com encontros em apenas um dia na semana, já é perceptível o desenvolvimento crítico e das potencialidades das crianças, imaginem com uma escola regular!?

Através de uma construção horizontal, fraterna, solidária, emancipatória e libertária entre todos e todas – LA OTRA EDUCACIÓN avança, contribuindo para a ‘’enfermidade’’ de novos olhares, como dizia Rubem Alves.

#Reconsidere

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