CONTOS DE UMA VIAGEM TRANSFORMADORA

POR QUÊ? POR QUÊ? POR QUÊ?

105.120 questões. Esse é o número de perguntas que, em média, as crianças fazem por ano de acordo com um estudo britânico realizado em 2012, que também ressalta diante dos nossos olhos o número 390 – correspondente à quantidade de perguntas que, também em média, uma criança de 4 anos é capaz de fazer em um único dia. Refletindo, matematizando e filosofando, acredito, que a nossa capacidade questionadora caia exponencialmente conforme o desenrolar da vida. Obviamente, podemos continuar desenvolvendo questionamentos internos, mas certamente, durante esse processo, atenua-se consideravelmente o número de questionamentos externados. Cabe indagar – se são as perguntas que nos levam ao desenvolvimento humano e social – porque na maior parte do tempo estamos preocupados somente em dar respostas e não em indagar na mesma proporção?

Durante a vivência na Escuelita Libre y Feliz Ayekum, situada na Vila Alemana, no Chile, tive a oportunidade de conhecer muitas crianças incríveis, com uma capacidade questionadora latente, mas uma, em especial, me chamou a atenção. Seu nome é Vicente Martinez, 8 anos, filho da educadora Paola que trabalha no projeto que visitamos.

Uma criança que é a prova viva que a aprendizagem se dá através de perguntas e não somente de respostas prontas. Vicente é ‘’A’’ criança dos ‘’por quês’’. Sua imaginação percorre o mundo da fantasia e das diferentes áreas do conhecimento. Outro dia me perguntou, porque no Brasil não havia terremotos. Não soube responder. Depois, explicou:

Franco, acho que no Brasil ocorrem terremotos, pois existe movimentação sempre de placas. O fato de vocês não sentirem, não quer dizer que eles não aconteçam.

Estava de boquiaberto com seus conhecimentos de geografia que não terminaram ali. Aprendi que Rússia e Canadá são os países de maior extensão territorial no mundo, que no Chile, constantemente, há terremotos e riscos de tsunami, entre outras coisas.

Ao mesmo tempo em que a experiência de conhecer o Vicente me transformou em muitos sentidos, confesso que também tive um sentimento de frustração por, mais uma vez, constatar que no sistema escolar tradicional operante no mundo em que vivemos – a capacidade de questionar, de pensar criticamente sobre os diferentes conteúdos – é diariamente podada nas crianças, em detrimento de uma memorização que, na maioria das vezes, não passa de uma ‘’falsa aprendizagem’’ para ser aplicada em uma avaliação.

Aprendemos, quando nos transformamos e nos transformamos quando entendemos o significado do que estamos aprendendo.

Como desenvolver esse processo!?

Respeitando a curiosidade intrínseca nas crianças.

Vicente é um pesquisador por natureza, como todas as crianças quando nascem. É incrível sentir a pureza e o brilho dos seus olhos na leitura do mundo que o cerca. Não tenho dúvida que sua vivência na ‘’Escuelita Libre y Feliz’’ está sendo muito importante no desenvolvimento da sua essência livre e questionadora. Na escola, que possui um método particular chamado Lefebre Lever, criado e implementado pela educadora chilena Maria Verônica, não existem divisões dos estudantes por turmas, provas, notas e aulas tradicionais. Os conteúdos do currículo oficial chileno são trabalhados de uma maneira diferente – respeitando muito mais o tempo de cada criança. Valoriza-se a prática de se filosofar por filosofar, mediação de conflitos pelo diálogo constante e em cada semana, há saídas, onde os estudantes investigam diferentes temáticas, a partir do método científico. Trabalha-se uma pergunta base, realiza-se uma investigação, elaboram-se hipóteses, testam através de experimentos e depois de analisarem os resultados verificam a veracidade das hipóteses propostas.

Lembrei-me de uma charge sensacional do cartunista Carlos Ruas sobre o Einstein, que pode, perfeitamente, ser estendida ao debate de educação/vida: o sistema escolar tradicional trabalha com exclamações, enquanto, projetos como a ‘’Escuelita Libre y Feliz’’ trabalham com interrogações – o que se trata apenas, de respeitar a essência questionadora que nos move.

O ótimo documentário Educação Proibida, revela que 98% das crianças de 5 anos poderiam ser consideradas gênios (que também significa uma pessoa alegre e prazerosa), por sua curiosidade, criatividade e capacidade de pensamento divergente, ou seja, de solucionar problemas das formas mais diversas e criativas possíveis. Depois de 15 anos, apenas 10% ainda mantém essa característica.

Vamos continuar ignorando o que se passa nesses anos?

Em uma das conversas, Vicente me perguntou:

– Franco, por que a polícia no Brasil mata mais as pessoas pobres e negras? Não entendoooo!

 

Continue perguntando Vicente…

Charge do cartunista Carlos Ruas

 

 

Você pode gostar também

Sem comentários

Deixe uma resposta